Joelmir Beting
Neoliberalismo? Não sei o que isso significa. Globalização? É sempre mais do que eu sei.
John Kenneth Galbraith, economista canadense
De Davos ao Guaíba 1
As globobagens da globalização, no dizer de Paul Krugman, recomeçam a desfilar, hoje, solenemente, em dois simpósios globais de aparatosa cobertura da mídia - objetivo em si mesmo de ambos os eventos. Em Davos, na Suíça, o Fórum Econômico Mundial, em sua 30.ª edição anual. Em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial, em sua primeira encenação.
O ranço ideológico do mundo bipolar da guerra fria passou o bastão de chumbo às mãos enluvadas dos formadores de opinião desse novo maniqueísmo intelectual. Em Porto Alegre, os que satanizam os moinhos de vento da globalização, estigmatizada como a manifestação superior ou terminal da economia de mercado. No resort alpino de Davos, os que demonizam os desvios de rota da economia de comando - de resto, semi-soterrada pela queda de quase todos os muros e de quase todas as pontes.
Da nova lavagem cerebral de Davos participam perto de 2.300 governantes, burocratas, acadêmicos, empresários e ongueiros. De Bill Gates a George Soros, de Yasser Arafat a Kofi Anan, de James Tobin a Robert Mundell, de Laurent Fabius a Lawrence Summers. Da masturbação ideológica de Porto Alegre fazem parte mais de 2.600 delegados de 23 países, maioria de ongueiros raivosos - para os quais a globalização nada mais é que a forma superior do imperialismo americano, agora mascarado de neoliberalismo. Sim, usinado pelo tal de Consenso de Washington.
O Fórum de Davos gabava-se de pintar (e influir sobre) cenários infalíveis, ainda que esotéricos. De fato, ele adivinhou a abertura chinesa, o desmanche soviético, o genocídio iugoslavo, as estripulias de Sadam, o fim do apartheid sul-africano, o advento e a explosão da Internet, o esgotamento dos monopólios estatais, a crise fiscal dos Estados ricos e remediados...
Davos só não enxergou o puxa-tapete da Opep nos anos 70, a Década Perdida dos anos 80 (a debt crisis colocou 34 países em moratória, Brasil no meio) e, nos anos 90, os colapsos financeiros do México, da Ásia e da Rússia.
E o que dizer do estouro da bolha digital da Internet? Perdão, da Nasdaq? Há exatamente um ano, Davos festejava a Década de Ouro da economia americana e não vislumbrava qualquer fissura no Titanic das pontocom - então em rota de colisão com um iceberg que fora detectado, três anos antes, por Alan Greenspan. O iceberg da exuberance irrational das mesas e das bolsas de Wall Street.
Secos & Molhados
Ainda a bordo
- Águia de paletó e gravata, Alan Greenspan, permanece na sala de controle da locomotiva global. Pelo menos até junho de 2004. E cá entre nós: uma declaração dele, entrando no automóvel ou saindo do elevador, pesa mais na vida de 6 bilhões de terráqueos que os sete dias corridos do brain storm de Davos. Ou de Porto Alegre.
Vez de quem?
- Um dos painéis mais esperados, em Davos, neste sábado, é o que se propõe a averiguar se a Década dos Estados Unidos, que se seguiu à Década do Japão, não estaria cedendo a vez a uma Década da Europa. E por que não a uma primeira Década da China? O governo da China comunista (pero no mucho) despachou comitiva de sete ministros globalizantes a Davos.
Duas canoas
- Bem francês. Enquanto seu ministro da Economia, Laurent Fabius, dá plantão no Fórum Econômico de Davos, a França deposita no Fórum Social de Porto Alegre seu ministro da Economia Solidária, Guy Hascoet. Escoltado pelo ministro de Comércio Exterior, François Huwart. Que traz a tiracolo o d. Quixote do Big Mac, José Bové.
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