‘‘O sucesso da presidência está em não encarar como impasse o que não passa de desafio.’’
Thomas Jefferson (1743-1826), 3.º presidente dos EUA
Clinton, de Bush a Bush
Na passagem do bastão, neste sábado, nos jardins enregelados da Casa Branca, o presidente Bill Clinton dirá ao sucessor George Bush que a Década de Ouro da economia e da sociedade pode e deve ser reprisada de 2001 a 2010. ‘‘Nosso futuro continua brilhante’’, escreveu William Jefferson Clinton na mensagem de despedida ao Congresso, na semana passada.
A assessoria econômica do presidente democrata, chefiada pelo professor Martin Baily, preparou, para o discurso de transmissão do trono, um cardápio dos indicadores econômicos mais positivos depurados pelos oito anos da Era Clinton. A preocupação maior está em capitalizar para Clinton fatos e feitos atribuídos a Greenspan por nove em cada dez analistas da felicidade nacional bruta.
Exemplo: o longo ciclo de prosperidade econômica com estabilidade monetária, com direito a bolhas de euforia em bolsas e em lojas seria resultante não da austeridade monetária de Greenspan (de resto, restritiva e purgativa), mas da neutralidade fiscal de Clinton (que se esgueirou do déficit para o superávit) e dos ganhos de produtividade do sistema econômico modernizado (incluído o setor público ‘‘reinventado’’).
Na mensagem ao Congresso, Bill Clinton antecipou os grifos do discurso de bota-fora do Salão Oval. Entre outros: 1) a economia não está e não vai entrar em recessão; 2) novos ganhos de produtividade e novos choques de competição manterão as empresas ativas e os mercados acesos; 3) a desaceleração do segundo semestre de 2000 não deve ser projetada para todo o ano 2001; 4) dado o grau anterior de fervura do radiador da economia a atual desaceleração tem de ser assimilada como uma solução e não um problema; 5) haverá reversão da reversão no segundo trimestre.
Tecnicamente, recessão é definida como queda encadeada do consumo, da produção e do emprego por dois trimestres consecutivos.
Algo mais grave que desaceleração ou mesmo estagnação. Ou seja: recessão não é avançar devagar (desaceleração) nem sair para o acostamento (estagnação); é engatar a marcha à ré no meio da pista ou na base da rampa.
Abastecido por Martin Baily, Bill Clinton dirá hoje a George Bush, olho no olho, que o PIB da águia fechou o ano 4,1% maior e com impulso de banguela para crescer mais 3,2% em 2001. E com a inflação gregoriana, nos terminais de consumo, baixando de 2,9% para 2,5%. Faltaria condicionar: se o novo governo republicano não perpetrar nenhuma asneira em seu noviciado da Casa Branca.
Secos & Molhados
De pai a filho
- Bill Clinton recebeu o bastão de George Bush, o pai, repassando-o, agora, a George Bush, o filho. Ele ainda tem idade para ver a filha na presidência, mas tem cacife ou luz própria para voltar à Casa Branca em janeiro de 2005. Ou melhor: se não ceder espaço político à própria esposa, a já senadora Hillary.
Tem chance?
- Analistas do poder sustentam que o futuro político do jovem Clinton depende de um fracasso (ou de uma recessão) nesta travessia do novo governo republicano da família Bush. Pelo sim, pelo não, Alan Greenspan, descoberto por Bush, o pai, deve permanecer no Fed até junho de 2004.
Risco maior
- Com Greenspan ou sem Greenspan, há um elo partido na corrente da prosperidade americana, adverte Stephen Roach, economista-chefe do banco Morgan Stanley: a poupança familiar baixou, desde 1994, da média histórica de 8,5% da renda para menos 1,1% dela, em 2000. Como nenhuma corrente pode ser mais forte que seu elo mais fraco...

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