‘‘Sempre que a economia consegue resolver o problema maior, a sociedade automaticamente engrandece o problema menor.’’
Arthur Lewis (1915-1991), Prêmio Nobel de Economia
Juízo no juro
O cenário externo, neurotizante, não pesou na decisão brasileira de rebaixar ainda mais a taxa básica de juros. O cenário interno, anabolizante, cantou mais alto para esse segundo refresco monetário em menos de quatro semanas. A Taxa Selic, então estacionada em 16,50% ao ano, já está em 15,25% - até 14 de fevereiro.
Se as coisas permanecerem nos eixos aqui dentro e se as neuras das vacas magras não forem maximizadas pelos coices das vacas loucas lá fora, a Selic leva jeito de se contentar com 12,50% até dezembro. Algo parecido com uma taxa real abaixo de 9%, se deflacionada pelo IPCA (projetado para 3,80%). Ou de apenas 5,50%, se desbastada pelo IGPM, inclinado para 7%.
Cabe lembrar que a taxa básica real já trafega na bitola civilizada de um dígito na Argentina (8,10%), no Chile (5,20%), no Paraguai (6,10%), no México (3,60%) e na Venezuela (-1,50%). São países tanto ou mais vulneráveis que o Brasil nos campos minados da economia globalizada.
No caso brasileiro, vulnerável é o Tesouro Nacional, não é de hoje sobrecarregado pela rolagem de uma dívida pública da variedade rosca sem-fim, do tamanho de meio PIB. Bastaria a redução de um ponto porcentual na nova Selic de 15,25% para aliviar os encargos financeiros do Tesouro em R$ 3 bilhões nesta travessia de 2001.
Os dois últimos cortes, somando 1,25 ponto porcentual para uma Selic de então 16,50%, já aliviaram o serviço da dívida em R$ 3,3 bilhões. O tal de círculo virtuoso engastado no reverso do garrote monetário: 1) menor o juro, menor a dívida; 2) menor a dívida, menor o déficit; 3) menor o déficit, menor o risco; 4) menor o risco, menor o juro... E cosi la nave và.
A decisão do Copom do Banco Central brasileiro poderá ganhar o aditivo de mercado de uma nova redução dos juros também nos Estados Unidos. O Fed de Greenspan tem reunião ordinária marcada para o dia 31. As cartomantes de Wall Street já apostam em novo corte na taxa básica, rebaixada no dia 3 de 6,50% para 6%.
As apostas em nova tesourada do Fed sustentam-se no tripé: a) a desaceleração da indústria, no último trimestre, foi maior que a esperada pelos arautos da recessão; b) a inflação no varejo natalino foi menor que a esboçada pelos radares do Fed; c) nova queda dos juros esfriaria a intenção do presidente George Bush (no trono a partir de amanhã) de reduzir impostos no rodapé do superávit fiscal já usinado pelo governo Clinton.
Secos & molhados
Bola de cristal
- Uma taxa básica de 12,50% no Brasil, este ano, estaria afinada com uma taxa básica de 5% nos Estados Unidos. O Fed descartaria 1 ponto porcentual da taxa atual de 6% em três cortes de 0,25 ponto. O primeiro, dia 31. O segundo, até junho. O terceiro, até setembro.
Todos ganham
- A redução orquestrada dos juros na base do sistema financeiro (por onde transitam as dívidas públicas) favorece o declínio das taxas nos créditos bancários em geral para o setor produtivo, vulgo economia real. Incluídos os créditos externos, no caso brasileiro.
Todos torcem
- E tome golfadas de otimismo pelos desvãos da sinistrose verde-amarela. Pesquisa da revista Exame, pela Internet, revela que 91% dos internautas pensam que vão melhorar, este ano, no trabalho ou na carreira. Para 87%, a respectiva empresa vai ter um ano melhor. E, para 85%, o Brasil como um todo vai tirar os dois pés do brejo ou da fossa.

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