Joelmir Beting
A verdadeira dificuldade não está em aceitar idéias novas. Está em escapar das idéias antigas.
John Maynard Keynes (1883-1946), economista inglês
Locomotiva 2001
Economistas e consultores, escoltados por analistas do mercado financeiro, vinham sustentando, em dezembro, que a desaceleração da economia americana, superaquecida até junho, havia sido provocada pela elevação dos juros do Fed de 4,75% para 6,50%. Agora, os mesmos especialistas juram, por todos os juros, que o corte das taxas do Fed não vai reacelerar coisa alguma.
Tradução: a locomotiva global vai mesmo sair para o pátio de manobras da estação 2001. Espécie de parada técnica para o resfriamento do turbocapitalismo de quase US$ 10 trilhões, com desemprego de apenas 4%.
Para a travessia de 2001, as cartomantes recheadas de álgebra estão mais uma vez divididas. Metade acha que vai dar para segurar o PIB da Águia aí pela faixa de 3,5%. Claro, se o Fed rebaixar outra vez os juros na próxima reunião ordinária do Fomc, em 30/31 de janeiro. E se, antes do novo refresco, o presidente eleito George Bush reafirmar, no discurso de posse, dia 20, a promessa de palanque: aliviar a carga tributária da economia e da sociedade, com uma navalhada progressiva de no mínimo US$ 1,3 trilhão até 2010.
A outra metade dos cenaristas suspira fundo e decreta em tom solene: o processo recessivo já foi desencadeado e não pode mais ser revertido. O corte dos juros chegou atrasado. Até porque a prosperidade americana, de toda uma década, teve a ver menos com o stop and go da política monetária de Greenspan e mais com o efeito riqueza das bolsas sobre os padrões de consumo de pelo menos metade das famílias americanas. Além dos impactos da revolução tecnológica na produtividade geral da economia.
O negócio, pois, é congelar o debate sobre juros e sobre bolsas e desengavetar a discussão sobre bolhas, ondas e ciclos. A irracional exuberância das ações de alta tecnologia, concentradas na Nasdaq, não passou de uma bolha. Que, se não estourou, já murchou. Com queda acumulada, no ano, de 39,3% no Índice Composto Nasdaq.
A produtividade geral, que cresceu de 1,6% nos anos 80 para 3,1% nos anos 90, foi uma onda, nas águas ainda revoltas da revolução tecnológica. Escorada pela competição exacerbada, a modernização da economia é que patrocinou a heresia da expansão dos mercados com a contenção dos preços. Resta saber se a onda já passou ou se não estaria, hidraulicamente, catapultando uma nova onda, ainda maior e mais longa que a atual...
Com a palavra, a velha teoria dos ciclos econômicos.
Secos & molhados
Que teoria?
- Lançada pelo economista russo Nicolai Kondratieff (1892-1930), há um século, a teoria dos ciclos econômicos foi enriquecida por uma penca de estudiosos de peso. Em especial, por outro economista russo, naturalizado americano, o professor Simon Kusnetz (1901-1985), laureado com o Nobel de Economia, em 1971.
Que ciclo?
- Pela teoria dos ciclos e com base no que escreveu em Modern Economic Growth (1966), Kusnetz diria hoje, pela Internet, que a economia americana estaria a meio caminho do chamado ciclo curto de Kondratieff: 22 anos de alta para 22 anos de baixa. Ou seja: o pouso da águia esfalfada só ocorreria a partir de 2012. Com Greenspan a bordo, até junho de 2008.
E até lá?
- Até lá, a locomotiva global estaria rodando, sustentadamente, pela média anual de 3,5%, com desemprego abaixo de 5% e inflação de 2,5%. Yes, com redução afrodisíaca de impostos, produtividade returbinada para 3% e juros do Fed abaixo de 5%. Ah! Com bolsas ajuizadas ganhando pela média histórica de 12% ao ano...





