Joelmir Beting
É tudo muito simples: em bolsa, fazemos sensacionalismo na alta com a mesma ligeireza com que fazemos catastrofismo na baixa.
Juliano Bastide, sociólogo
O pior desde 1993
Porque o Fed deixou escapar que ensaia rebaixar os juros da base antes da próxima reunião do Fomc, marcada para 30 e 31 de janeiro, a Nasdaq respirou fundo na última volta antes do Natal e deu um pinote de 7,5% no fechamento da sexta-feira. O que serviu para reduzir as graves perdas do ano (desde o pico de março) para 49%, até ontem.
Pois nem o refresco da Nasdaq tirou da retranca o Papai Noel 2000. Primeiro, porque 87% dos americanos, segundo a Visa, executam as compras natalinas até 15 de dezembro. Segundo, porque as trocas anuais de presentes ocorrem menos no Natal e mais no Dia Nacional de Ação de Graças (última quarta-feira de novembro). Terceiro, porque um refresco das bolsas na sexta-feira não bastaria mesmo para revirar a percepção coletiva dos investidores de que o pior ainda está para chegar. Em fevereiro, no mais tardar.
Única certeza: o varejão americano de dezembro deve ter crescido, em termos reais (valores deflacionados por um IPC gregoriano de 3,4%, em apenas 2%. Contra 6% no Natal 1999 sobre o Natal 1998. Ou seja: o pior dezembro desde 1993. O detalhe: essa estimativa da Visa inclui as compras on-line pela Web. Com expansão real, já esperada, de 64%.
O desalento do Natal americano só não passou recibo em Nova York. O consumerismo da Big Apple continua fortemente fertilizado por turistas estrangeiros. A cidade enfeita-se para o Natal como nenhuma outra no mundo (ganha até da alemã Munique). Ela sabe fazer festas de rua o mês inteiro, lota igrejas, superlota lojas e converte a Fifth Avenue em calçadão quilométrico, que vai da Rua 59 à Rua 42 . E com milhares de japoneses(as) fazendo fila nas calçadas enregeladas da Prada, Vuiton, Gucci, Fendt, Ferragamo, Bulgari e Tiffany.
A reversão das expectativas dos investidores/consumidores (com índice de confiança em queda livre) tem tudo a ver com o atual crash do chamado Efeito Riqueza. Fundos e bolsas recirculam uma poupança popular, de famílias e de indivíduos, da ordem de US$ 6,4 trilhões (valor de mercado em 15 de dezembro). Ano passado, crista da Década de Ouro, esse pé-de-meia coletivo, em nome de 54% da população americana, havia acumulado ganhos de 86% em ações da Nova Economia (hospedadas, preferencialmente, na bolsa virtual Nasdaq) e 24% nas ações da Velha Economia (centradas na Nyse).
Pelo cheiro da brilhantina destes próximos três pregões, os últimos do ano, as perdas anuais ficarão acima de 10% na Nyse e de 40% na Nasdaq. Pouso nada suave. Com tranco de sobra para resfriar o Natal e obscurecer o réveillon. Que é do Milênio.
Secos & Molhados





