‘‘Quando a economia dos homens resolve o problema maior, ela engrandece, automaticamente, os problemas menores.’’
Alvin Hansen (1887-1975), em Cycle of Prosperity and Depression
Não é o que parece
Desaceleração da economia superaquecida, com expansão anual acima de 5%, é uma solução e não um problema. O problema seria uma derrapagem direta da aceleração para a estagnação. Passar de mais de 5% ao ano para menos de 4%, com inflação abaixo de 3% seria uma ‘‘velocidade de cruzeiro’’ razoável e sustentável.
Claro, para a economia americana, locomotiva global. Esse tal de ‘‘pouso suave’’, iniciado neste último trimestre do ano, tem o mérito de reverter o arrocho monetário criogênico do Fed de Greenspan. De sobremesa, apaga o fogo de palha da Opep, trazendo a cotação do barril tipo Brent para a banda US$ 23/26, em 2001.
Nada de dramático, pois. Os americanos, em plena ressaca cívica de uma década de prosperidade (e de uma troca surrealista de governo), continuam otimistas e confiantes. Afinal, quem segura o leme da economia de quase US$ 10 trilhões, a dólar corrente, não é o salão oval da Casa Branca, com sua neutralidade fiscal. Mais que nunca – imaginam eles – é o Fed de Greenspan, com sua austeridade monetária de padrão ‘‘stop and go’’.
Austeridade monetária? Bem, existe aí uma certa ‘‘fantasia organizada’’, diria Celso Furtado. Variações de meio ponto porcentual na taxa básica de juros (dos títulos federais) não teriam musculação suficiente para aquecer ou desaquecer a economia. Nem para travar ou destravar a carestia.
Austeridade monetária, com impacto direto nos negócios, nos empregos e nos preços, estaria no arrocho bancário para produção, giro e consumo. Pois os americanos estão na crista de uma verdadeira ‘‘farra de crédito’’, endividados como nunca antes. As famílias estão rolando nos bancos perto de US$ 6,8 trilhões. Bem mais que as empresas. Essas empinavam, em outubro, cerca de US$ 4,7 trilhões. Cadê a austeridade?
Pelo sim, pelo não, o pouso suave significa menos uma travada monitorada pelo Fed e mais uma certa ‘‘fadiga do material’’ do sistema de há muito deslanchado. Esse auto-ajuste do mercado tem menos a ver com a taxa de juros de Greenspan e mais com o estouro de bolhas formadas na crista da onda da Década de Ouro.
Caso estrepitoso da bolha da Nasdaq. Ela fecha o ano da verdade com perdas, desde o pico de março, de um terço do respectivo valor total de mercado (market capitalization). Um tombo no patrimônio coletivo de US$ 7,2 trilhões para US$ 4,8 trilhões. Ou um desfalque de US$ 2,4 trilhões no chamado Efeito Riqueza, principal reator do hedonismo tipo ‘‘eu consumo; logo, existo’’.


SECOS & MOLHADOS

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