‘‘O mercado financeiro move-se ao sabor das expectativas. Ainda
que, não raro, descoladas da realidade econômica.’’
Paulo Guedes, economista.
Presente de Natal?
Já vimos esse filme em branco-e-preto. Metade dos analistas do mercado financeiro aposta na redução da Taxa Selic de 16,50% para 16%. Uma celebração natalina. A outra metade acredita na manutenção do piso pela autoridade monetária, vulgo Copom do Bacen, reunido desde ontem, já com o sinal do Fed na mesa.
O bloco dos esperançosos cobra a promessa do presidente Fernando Henrique Cardoso, chutada em fevereiro: a de penetrar no século 21 com Selic real de um dígito. Se deflacionada pelo IPCA, reestimado para 6%, ela teria de ser rebaixada hoje para 15,75%. Se desbastada pelo IGPM, índice favorito do mercado financeiro, ela já estaria abaixo de 7%.
Os esperançosos sustentam que há gordura em excesso na taxa básica. Haveria espaço para a redução dela
independentemente do risco Argentina e do risco Tio Sam. Até porque, pelo nível da dívida pública, perto de 49% do PIB, cada ponto porcentual de queda da Selic concede ao déficit público (financiado pela dívida pública) um refresco fiscal do tamanho da CPMF anual. Que tal?
Ainda os analistas que preferem jogar no mercado feito um São Caetano vestido de azul entendem que uma Selic menor não teria massa crítica para reabrir a jaula da inflação de demanda. O efeito inflacionário de uma distensão monetária estaria plantado em alguma ‘‘farra de crédito’’ nos terminais de consumo.
E mais: pela régua do IPCA, a inflação deve continuar no declive pelos horizontes de 2001. Fala-se em queda do preço médio do petróleo importado (para US$ 24 o barril do Brent) na
travessia do primeiro semestre. Com direito a uma (im)provável redução dos preços internos da gasolina...
Outro viés de baixa do IPCA estaria na acomodação das tarifas públicas ainda (mal) administradas pelo governo. Em bloco, elas subiram 34% em 1999 e 16% este ano. A caminho de 7%
em 2001. O problema é que a argumentação dos esperançosos não bate com a recomendação dos cautelosos: o espaço para a redução da Selic existe, mas o momento adequado para esse presente de Papai Noel estaria no após o carnaval e não agora antes do Natal.
Os cautelosos não deixam por menos. É preciso sopesar, em mais três meses, algum desfecho na Argentina, uma avaliação mais segura do pouso suave da astronave americana, as primeiras penadas do governo Bush, o calibre do inverno (e do petróleo) no Hemisfério Norte e a evolução da taxa de câmbio cá entre nós.


SECOS & MOLHADOS

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