‘‘O Mercosul deve, pode e merece ser salvo. E até ampliado. O que não se deve fazer é guindá-lo à condição de panacéia.’’
José Botafogo Gonçalves, embaixador
Omelete com bacon
Com o Mercosul, o Brasil ficou quase um terço maior, em potencial de mercado. Com o mesmo Mercosul, a Argentina ficou duas vezes maior. A fatia brasileira no produto em bloco de exatamente US$ 1 trilhão (a dólar de junho de 2000) é hoje de 69%. A tranche argentina é de 28%. A do Uruguai não passa de 2%. A do Paraguai, 1%.
Que não se perca essa partilha do bolo físico quando se discute a divisão política 4x4 do fórum de decisão do Mercosul, estabelecido pelo Tratado de Assunção. O certo é que todos ganham com a consolidação do mercado comum do Cone Sul. Incluído o Chile, que continua fazendo beicinho para o Mercosul, enquanto reata o namoro com o megabloco Merconorte, vulgo Nafta, tripulado pelo Tio Sam.
Nesta Cúpula de Florianópolis, os presidentes do Mercosul cuidam de retemperar o rumo, o ritmo e o prumo da integração regional ainda mambembe. As conveniências estratégicas do bloco são bem mais relevantes que as divergências táticas do próprio, nas palavras do chanceler argentino Adalberto Giavarini.
O problema é que as divergências táticas esgotam a capacidade de negociação da diplomacia comercial e já contaminam o trato pactuado das conveniências estratégicas. Caso, por exemplo, da ciumeira despertada em Brasília e Buenos Aires pela tratativa de um acordo bilateral Chile-Estados Unidos. Ou da proposta de antecipação da decolagem da Alca, futura área de livre comércio das três Américas. Fixada para 2005, a Argentina aceita 2004 ou mesmo 2003. O Brasil insiste em 2005 e não rejeitaria 2007.
A matéria é abrasiva. Ela ensaia dominar a agenda da Cúpula de Florianópolis. O Brasil pondera o seguinte: 1) antes de uma fusão com a Alca de US$ 11 trilhões é preciso garantir a musculação do Mercosul de US$ 1 trilhão; 2) o ideal seria, ainda antes da Alca, adensar o Mercosul com a inclusão progressiva de Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela; 3) ampliado ou não, ter-se-ia de promover, antes da Alca, a convergência macroeconômica dos países do bloco. Tarefa para mais uma década, no mínimo.
O desafio maior da Alca está menos no tamanho do megabloco do Norte, dez vezes maior que o bloco do Sul, e mais na qualidade das empresas do primeiro em relação às empresas do segundo. São taxas de produtividade e de competitividade dramaticamente díspares.
Ou como diria Itamar: seria uma joint venture do porco sul-americano com a águia norte-americana para a produção em massa de omelete com bacon. A águia entraria com os ovos e o porco com o toucinho...
Unidos. A fatia do Mercosul nos embarques totais do Brasil subiu de 7% para 15%. A fatia americana é hoje de 18%.


SECOS & MOLHADOS

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