Joelmir Beting
Os jornais dão a impressão de que a economia entrou em colapso. Será que devemos largar tudo? Vamos pescar? Vamos à igreja?
Alan Greenspan, presidente do Fed (outubro de 1998)
Em se devendo, dá
Aumento de 36% em volume, expansão de 34% nos prazos e redução de até 27% nas taxas. É assim returbinado que o crediário do Natal 2000 espera superar de 12% a 15% as vendas em geral do Natal 1999. Seria o melhor Papai Noel desde a primeira edição natalina do Plano Real, em 1994.
Sem mistério. A economia moderna é movida a crédito farto e fácil nos terminais de consumo. Com a atual distensão monetária, que nada tem a ver com farra de crédito, o Brasil começa a reentrar na atmosfera do planeta Terra. Em matéria de arrocho bancário, a gente estava transitando lá pela face oculta da Lua.
Sintam o calibre da coisa nas sondagens da Serasa, principal periscópio do crédito bancário no País: o consumidor brasileiro deve apenas 17 dias do salário, contra 48 dias do argentino ou 212 dias do americano. Ainda assim, com ardida inadimplência média de 6,8% (para atrasos acima de 90 dias).
Os juros do crediário continuam salgados, segundo a pesquisa mensal da Anefac. Algo parecido com 76% ao ano nas grandes redes de varejo. Ou de 71% no crédito pessoal em banco. Sem contar as taxas anuais ainda embrutecidas de 151% no cheque especial ou de 163% no cartão de crédito.
O prestamista não se queixa e suspira fundo: no Natal passado, em plena crista na sinistrose nacional bruta, essa baciada de juros, amoitada nas prestações do microondas, do celular, do televisor ou do pacote da Disneyworld, estava 27% mais perversa.
Consultores do varejo dizem que a euforia que ronda o Natal 2000 tem a ver menos com o refresco no crediário e mais com a tal de reversão de expectativas da classe média e da baixa renda. Os consumidores da linha quem não deve não tem sentem que o pior já passou e que o Brasil não vai acabar no ano-novo. Nem o emprego.
Eis a questão: reacende-se nos negócios do varejo o poderoso reator de vendas chamado expectativa de manutenção de renda. Confiante na garantia do emprego ou da renda, o consumidor arrisca-se a empenhar o próximo ano nas prestações de loja ou de banco. Até porque o prazo médio de financiamento das grandes lojas cresceu, este ano, de 17 para 35 meses. Maior o prazo, menor a prestação mensal, independentemente da redução ou não dos juros embutidos nos preços a prazo. Mas já há redes de combate cobrando juros de 1,60% ao mês no cartão próprio. Na faixa dos shoppings, os mais atiçados na promoção
natalina, a expectativa é de um aumento real de vendas de até 7%.
SECOS E MOLHADOS





