Joelmir Beting
Nos tratos do Mercosul, temos de dar atenção menos às nossas divergências táticas e mais às nossas coincidências estratégicas.
Adalberto Giavarini, chanceler argentino
Devagar com o andor
A gestação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) vai até janeiro de 2005. Por que não antecipar esse parto de montanha em exatamente um ano, janeiro de 2004? A proposta é do chanceler argentino Adalberto Giavarini, comentando a agenda da Cúpula do Mercosul, na próxima sexta-feira, em Florianópolis.
Quem está vivamente interessado na antecipação da decolagem do megabloco pan-americano é o salão oval da Casa Branca, mais que o gabinete presidencial da Casa Rosada. Na percepção do chanceler argentino, a vitória do republicano George Bush robustece a usinagem diplomática da Alca. Os republicanos vestem a camisa do Nafta e da Alca. Eles não são patrulhados pelos currais eleitorais dos sindicatos e dos servidores, capital político dos democratas.
O problema é que não interessa ao Brasil, principal interlocutor de Washington na América Latina, qualquer atalho no cronograma da Alca. Bem ao contrário, a chancelaria brasileira daria preferência a uma protelação da Alca para 2007 e não a essa cesariana em 2004.
O presidente Fernando Henrique Cardoso já discursou repetidamente sobre o assunto: a) antes de juntar os trapos da Alca, seria preciso selar os tratos do Mercosul; b) a musculação do Mercosul teria de agregar novos parceiros da América do Sul; c) um Mercosul ampliado para um Amercosul azeitado ganharia massa crítica para levantar a crista e engrossar a fala na negociação do formato e do conteúdo da Alca com o Big Brother do Norte opulento.
O chanceler brasileiro Luis Felipe Lampreia cuida de passar ao largo da proposta do colega argentino, entendendo que a Cúpula de Florianópolis, dia 15, seria o fórum adequado para empinar balões de ensaio assim de grosso calibre. O ministro está mais preocupado em sondar as intenções e os efeitos de um acordo comercial do Chile com o Nafta. Um namoro agora oficialmente assumido por Santiago e Washington e que já causa ciumeira em Buenos Aires, Bogotá e Caracas. Claro, além de indisfarçável irritação em Brasília.
O subsecretário de assuntos comerciais do Itamaraty, José Alfredo Graça Lima, prefere exibir o lado bom da maçã chilena: um acordo bilateral serviria para testar os limites de Washington na concessão de vantagens comerciais a um parceiro sul-americano que ainda está com um pé na canoa do Mercosul. O Chile colocaria em prova o que um governo Bush teria a dizer ou a fazer em matéria de tarifas aduaneiras, regras antidumping, proteção de patentes, exigências trabalhistas, cláusulas sociais, salvaguardas ambientais, isonomias tributárias e cambiais... Fácil, não?
SECOS & MOLHADOS





