Joelmir Beting
Convencer políticos da necessidade de cortar despesas é a mesma coisa que explicar a um peru o significado do Natal.
Ciro Gomes, ex-governador (Ceará) e ex-ministro (Fazenda)
As dez cachoeiras
Distribuidoras de eletricidade e grandes consumidores industriais da própria acabam de disputar, no grito, a concessão para construir uma dezena de usinas hidrelétricas em quatro Estados: Minas Gerais (4), Rio Grande do Sul (3), Goiás (2) e Rio de Janeiro (1). Tais usinas somarão 1.246 megawatts (MW) e custarão R$ 2,9 bilhões.
É a primeira grande investida do setor privado no campo da geração da energia dos rios domados. Antes, claro, da privatização de metade da capacidade já instalada da Cesp na bacia paulista do Paraná. Marcado para amanhã (será?), na Bovespa, o leilão da Cesp vai contar só com grupos estrangeiros: americanos, franceses, espanhóis e portugueses. Os grandes grupos nacionais deram preferência ao leilão de novas outorgas, realizado quinta-feira, na bolsa do Rio.
Leilão de outorgas? Sim, eles compraram dez cartas de concessão da Aneel (agência reguladora do sistema). Ou como diz o presidente José Mário Abdo: Em verdade vos digo, eles compraram dez cachoeiras. Agora, terão de comprar todas as terras para os respectivos reservatórios e construir as usinas zero MW já mapeadas.
Tendência jurada forte no ramo: antigas distribuidoras e grandes consumidores deram de cuidar da geração própria no futuro. Eles apostam numa combinação abrasiva: escassez de energia e choque tarifário. Um choque catequético para quando o bafo de onça do racionamento dramatizar programas de conservação de energia.
O choque tarifário aí pela proa (sistematicamente desmentido pelo discurso oficial) teria um triplo objetivo: 1) motivar a conservação de energia; 2) estimular novos projetos de geração, transmissão e distribuição; 3) viabilizar, economicamente, as futuras termoelétricas a gás (49 parcerias do setor privado com a Petrobrás).
Racionamento? Os reservatórios do Centro-Sul, dois terços da oferta nacional de energia, ensaiam fechar o ano com 25% a 27% da capacidade. A média histórica do Natal é de 55%. A economia brasileira volta a crescer acima de 4% a 5% (com três batidas na madeira). O setor industrial reacelera para mais de 6%. E continua em alta o processo de eletrificação da sociedade. Especialmente na demanda residencial e nos serviços em geral.
O Brasil conta hoje com uma potência instalada de quase 70 mil MW para uma demanda aparente de 67 mil. A folga é estreita e passa a depender dos caprichos do bom São Pedro. Que acumula, entre nós, as novas funções de ministro da Energia com as velhas tarefas de ministro da Agricultura.
SECOS & MOLHADOS





