‘‘Del dicho al hecho hay siempre un gran trecho.’’
Carlos Menem, ex-presidente argentino
Nanismo cambial
No câmbio de paridade fixa (1x1), com troca da moeda nacional pela moeda americana garantida em lei, vulgo ‘‘currency board’’ (conselho da moeda), os argentinos não estão sozinhos. O país está na companhia de quem? Na companhia da Bósnia, Bulgária, Estônia, Lituânia, Brunei, Djibuti, Hong Kong, Faroe, Bermudas, Gibraltar, Cayman e Falklands. Perdão, Malvinas.
‘‘Uma companhia, digamos, pouco lisonjeira para um país do tamanho e do prestígio da Argentina’’, escreve o professor Paulo Nogueira Batista Jr. em seu novo livro A economia como ela é... (Boitempo Editorial).
Pois se a Argentina, sem embargo, apelar para a dolarização terminal, por decreto, aí ela descerá para a companhia do Panamá e dos minúsculos Arquipélagos Micronésia e Palau. Que tal?
Eis a questão de fundo: a) com ou sem o guarda-chuva financeiro do FMI; b) com ou sem o pacto orçamentário dos governadores; c) e com ou sem os avanços e recuos do ajuste fiscal leonino – a economia argentina tende a permanecer atolada no charco da estagnação, com deflação.
O engessamento cambial, que já dura quase uma década, está no limite da fadiga do material. Ou a um espasmo da ruptura. Agora, esse impasse técnico da alquimia monetária acaba de dar carona ao impasse político da ebulição social. A contagem regressiva acaba de ser ligada pela greve geral, ‘‘chamada’’ por uma taxa de desemprego que caminha para 17% nesta reta de chegada do Natal.
A agravante da crise reside no fato que os argentinos trocaram de governo e as coisas, na percepção deles, não melhoraram. Bem ao contrário, azedaram de vez. Aí entra na arena da insatisfação coletiva uma velha lei de ciência política: expectativas fraudadas de mudança (para melhor) são mais explosivas, politicamente, que velhas necessidades nunca atendidas. Essa frustração equivale a apagar a luz no fim do túnel. Ou pior: significa a destruição do túnel.
Pois bem. O Brasil não é Bósnia, Brunei, Faroe, Gilbraltar ou Malvinas. O Brasil livrou-se da ‘‘âncora cambial’’ sem abrir a jaula da inflação. Mas economistas americanos graduados continuam oferecendo o peixe podre de uma dolarização pactuada do Brasil e da Argentina, vulgo ‘‘moeda única’’ do futuro Mercosul ampliado. Dá para levar isso a sério? Quando dito ou escrito em inglês, sim. Em francês, mais ainda. Em francês? Bem, a França não exporta economistas nem consultores. Ela se contenta com sociólogos e antropólogos.


SECOS & MOLHADOS

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