‘‘Os americanos terão um presidente com sabor de ilegitimidade. Eis o pior que pode acontecer com o líder em uma democracia.’’
Stephen Kanitz, consultor
Habemus Bush
O povo não sabe votar. O povo não sabe nem em quem está votando. O povo não sabe sequer apurar os votos. Metade do povo prefere não votar. E o povo inteiro não está nem aí com o resultado ou a falta de resultado da eleição. Yes, o povo americano, diria Pelé.
Habemus Bush? Well, da chaminé da Flórida, tal como da chaminé do Vaticano, demorou um bocado para a fumaça preta virar fumaça branca. Parece que está saindo fumaça cinza. Ou como diz José Maria de Jesus, motorista de táxi: ‘‘Espero que a vitória de Bush gore. O tapetão deles, tal como o nosso, também tarda e falha.’’
Na Veja, Stephen Kanitz aponta toda uma baciada de equívocos eleitorais na sólida democracia americana. Cá entre nós: se há quem tenha autoridade política para questionar o sistema eleitoral da Águia é justamente o Brasil 2000. Aqui, a eleição direta para presidente (ou para governador ou para prefeito) não tem intermediação colegial. E faz uso, quando aritmeticamente preciso, do resseguro de adensamento eleitoral chamado segundo turno.
Kanitz lembra que sem os caronistas dos partidos nanicos, incluído o de Ralph ‘‘Enéas’’ Nader, uma segunda votação poderia eleger Gore e não Bush. Afinal, Nader e Buchanan, entre outros ainda menos votados, foram nada democraticamente barrados de todos os debates televisisos exatamente por serem nanicos.
E o que dizer do voto obrigatório? Simples: Bush foi eleito (?) por apenas 1 americano em cada 4. Kanitz lembra que quase metade do eleitorado potencial de 201 milhões preferiu ficar em casa no dia da eleição. Nanicos fora, dos votos recolhidos (e decifrados com lupa de filatelista) sobraram 48% do potencial de eleitores. Empatados, Bush e Gore ficaram com 24% cada um da ‘‘vontade popular’’ total.
Ora, um quarto da nação, escolhendo o mais alto dignatário, é muito pouco para uma democracia sem hiato que se serve das urnas até mesmo para escolher o juiz, o delegado, o nome da rua, o uniforme da escola ou a instalação ou não de uma nova fábrica.
A figura esotérica do colégio eleitoral é outra idiossincrasia política que só fazia sentido ao tempo da primeira dentição nacional, até meados do século 19. O primeiro presidente do século 21 não está sendo eleito diretamente pelo povo. A eleição é indireta. E, como lembra Kanitz, com direito a erros consentidos de arredondamento de votos por Estado para fins de nomeação das 538 vagas do Grande Colégio.
Em resumo: Rondônia já vota legal. A Flórida, ainda não.


SECOS & MOLHADOS

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