‘‘O brasileiro tem algo mais que memória da indexação. Ele tem é saudade da indexação. Muito cuidado, pois.’’
Juliano Bastide, sociólogo
Com aviso prévio?
Cá entre nós: não era preciso marcar data para o próximo reajuste dos derivados de petróleo. Anote na agenda do negócio e na gestão do estoque: 6 de abril de 2001. Um segundo reajuste automático pela proa também já tem aviso prévio: 6 de julho. E um terceiro está igualmente contratado: 5 de outubro.
Pode? Para a ‘‘cultura de intervenção’’, herdada do monopólio estatal do petróleo, tudo pode. Incluída essa temerária aposta na reindexação ostensiva de um bloco de mercado com enorme efeito multiplicador sobre as atividades econômicas em geral. Uma alquimia tecnocrática que embarca na contramão do processo de desindexação voluntária e progressiva da economia – a verdadeira âncora do programa de estabilização, inaugurado pela URV em março de 1994.
A bordo de uma penada planaltina, travestida de portaria interministerial, temos todo o calendário dos reajustes de 2001, com definição já divulgada do indexador. Sim, uma fórmula sofisticada que mistura projeções de duas variáveis que não podem nem devem ser projetadas: a dos preços do petróleo lá fora e a das taxas do câmbio aqui dentro. Com sobras para estimativas não menos esotéricas do tipo variação dos saldos da PPE (a caixa-preta da conta petróleo) e evolução dos lucros/perdas da heráldica Petrobrás.
Essa chutometria encharcada de álgebra toma como referência um valor constante de R$ 55 (yes, em reais) para o barril importado tipo ‘‘brent’’ (cotado preferencialmente nas Bolsas de Londres e Roterdã). Quer dizer: de nada adianta lembrar que o peso dos importados na oferta interna da Petrobrás mal tem passado de um barril em cada quatro. A caminho de um em cada cinco, em 2001.
E qual seria o valor real, também em reais, do barril produzido aqui no Brasil? Perguntem à matrona PPE, codinome da chamada Parcela de Preços Específica – a tal de ‘‘conta-petróleo’’, que se tornou refém, não da política energética, mas do (des)arranjo fiscal.
O negócio é tão enigmático, com transparência zero, que a PPE vai fechar o ano com déficit de no mínimo R$ 800 milhões para uma Petrobrás que vai bebemorar, no ‘‘réveillon’’ do Terceiro Milênio, um lucro líquido anual de no mínimo R$ 8 bilhões.
Freud explica? Nem Friedman. Pois a tecnocracia explica: a nova fórmula, a 16ª em 20 anos, vai permitir reajustar os preços tanto para o alto como para baixo... Só falta antecipar a data do próximo reajuste para 1º de abril, que é do ramo.


SECOS & MOLHADOS

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