Joelmir Beting
Foi como um jogo de pôquer, repleto de manhas e de blefes. Em leilão que se preza, a alma do negócio é a dissimulação.
Erivelto Rodrigues, consultor financeiro
Vale quanto pesa?
Ainda boquiaberto, o mercado financeiro continua discutindo no Brasil, na Espanha e em Wall Street o lance de grosso calibre do cantábrico Santander na aquisição do paulista Banespa. O ágio de 281% sobre um preço-isca, supostamente técnico, não estava nos prognósticos de ninguém.
A chutometria das avaliações divide os analistas improvisados em três grupos: 1) os que acham que o banco espanhol pagou duas vezes mais do que o Banespa realmente vale; 2) os que acham que o Santander pagou barato pelas sinergias positivas que o Banespa agrega ao novo dono; 3) os que acham que na maturação das uvas verdes do Banespa, o Santander nada mais fez que modular o preço justo, com retorno certo, em prazo adequado.
Tais exercícios de achologia bancária ousam avaliar, pelo lado de fora do comprador, aquilo que só pode ser avaliado pelo lado de dentro dele: exatamente o valor da tal de sinergia, que varia de banco para banco e varia até de um dia para outro no mesmo banco. Ora, só o Santander sabe quanto pesa e quanto vale o conjunto dessas sinergias próprias, de curto, médio e longo prazos.
Ou como disse, ontem, nesta coluna, o consultor financeiro Gaspar Torelli: Se o Santander acha que o Banespa vale R$ 7 bilhões, é porque o Banespa, para o Santander, vale realmente isso. E nada como um leilão, que se esboçava mui acirrado, para explicitar todas as sinergias ocultas do vencedor.
Em nota oficial, preparada para o mercado, o Santander sustenta que a relação preço/valor patrimonial foi de 2,1 vezes e não de até 4,8 vezes, segundo divulgou uma consultoria logo após a martelada de R$ 7,050 bilhões. Nas contas do Santander, haverá um desconto de aproximadamente R$ 2 bilhões a título de créditos fiscais a futuro, projetados sobre aquele mesmo ágio de 281%, contabilizado como despesa aqui no presente. E mais: o preço pago pelo lote de 30% do capital total não será o mesmo dos 70% em poder dos minoritários. As ações do Banespa estavam negociadas a 57% do valor patrimonial.
Sinergias ocultas? Nem tanto. Sabe-se que, com o Banespa na pança, o maior banco da Espanha assume o pódio de maior banco da América Latina, terceiro maior banco privado do Brasil e 11º maior banco do mundo. Na estratégia global do Santander, o ataque é a melhor defesa. Ele faz musculação para encarar, na arena de areia do mercado sem fronteira, os dez competidores maiores que ele, chamados de miúras globais. Torero!
SECOS & MOLHADOS





