‘‘Se o Santander acha que o Banespa vale R$ 7 bilhões, é porque o Banespa, para ele, vale realmente isso.’’
Gaspar José Torelli, consultor financeiro
De queixo caído
Acabou a discussão do preço mínimo. Triunfou a lógica obtusa do leilão. Por um pedaço de 33% do capital total, lastreado por 60% das ações ordinárias com direito a voto, o espanhol Santander arriscou pagar pelo controle do Banespa nada menos de R$ 7,050 bilhões. Ou perto de US$ 3,5 bilhões.
Muito ou pouco? Quase o dobro da hipótese mais otimista do governo federal, vendedor do banco paulista federalizado. Ou quase R$ 1,2 bilhão acima do patrimônio líquido total do Banespa. Sobre o lance mínimo de R$ 1,850 bilhão, que também funciona como calibrador do ágio para fins contábeis e fiscais, o lance vencedor abriu uma distância pirotécnica de 281%.
O mercado brasileiro (e espanhol) passou o dia todo de queixo caído. Apostava-se numa queda-de-braço Bradesco versus Itaú. Em jogo, para ambos, a liderança do ranking brasileiro. Ou mais que isso: a musculação de mercado para um primeiro choque de competição bancária, de fora para dentro, ainda por vir.
Maior até que a surpresa produzida pela identidade do vencedor foi a surpresa do lance oferecido pelo próprio. O mesmo mercado admitia de ótimo tamanho um martelo de, no máximo, R$ 4 bilhões, com ágio aí pela bitola dos 100%. Na ionosfera de 281%, as ações do Santander acabaram caindo 6,86% na Bolsa de Madri...
Será que o banco espanhol pagou muito caro pelo Banespa? Só o próprio Santander tem a resposta. Ele é que sabe (e mais ninguém) o que o Banespa realmente vale para sua estratégia no Brasil e na América Latina: a de se colocar como a maior casa bancária de toda a América que não fala inglês, com seus 31 países de fala espanhola.
O valor real de um Banespa para o comprador dele vai além do patrimônio líquido, dos créditos fiscais, dos encargos trabalhistas, dos esqueletos contábeis, do fluxo de caixa descontado (para trazer presumidas receitas e despesas futuras a valores presentes), da qualidade dos créditos na praça, dos spreads embutidos em tais créditos, da quantidade e da qualidade da clientela, da demanda de modernização da empresa, da cotação das ações em bolsa, da inclinação dos juros de captação e aplicação, dos cenários da economia brasileira, do custo Brasil, do risco Brasil... Ufa!
Para o comprador, o Banespa também vale pelas sinergias positivas ou negativas que a incorporação ativará dentro e fora do mercado brasileiro. Ora, só o Santander pode avaliar as próprias sinergias, segredo maior do negócio. E, pelo lance martelado ontem, as sinergias do Banespa, para o Santander, são altamente positivas. E nada melhor que um leilão para explicitar tais sinergias.

SECOS & MOLHADOS

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