‘‘No setor bancário brasileiro, o governo que faz deve ser
substituído pelo governo que faz fazer.’’
Luís Paulo Arduino, consultor financeiro
O atalho bancário
Ganhar cada vez menos sobre cada vez mais é a lógica bancária desde que os bancos foram inventados pelos lombardos ainda nas penumbras da Idade Média. A teoria econômica do século 18 deu a essa estratégia o crachá de economia de escala.
Seguinte: dependendo da natureza do negócio, o ganho da empresa cresce por aumento continuado do volume negociado por unidade fixa de produção. No caso dos bancos, que são fábricas de serviços, a coisa fica assim combinada: maior volume de depósitos e de transações por agência e maior volume de depósitos e de transações por funcionário em cada agência.
Ganhar menos sobre cada vez mais significa sequestrar clientes da concorrência, fidelizar os novos clientes e refidelizar os clientes já existentes. A ordem é ampliar não apenas o número de clientes (os investidores ou depositantes na ponta da captação e os tomadores ou mutuários na ponta da aplicação), mas também ampliar o valor dos ativos de cada cliente dentro do banco. Seja o cliente corporativo, a pessoa jurídica, de maior peso na movimentação do dinheiro pelas duas pontas; seja o cliente pessoa física, ainda em minoria no Brasil.
Eis o que há por debaixo da mesa da privatização do Banespa: a busca da escala ampliada pelo atalho da incorporação. O mercado bancário brasileiro não está crescendo na horizontal da sociedade nem na vertical da economia. Parece os mercados financeiros já saturados de americanos, europeus e japoneses. Lá, o marcapasso resulta da opulência de um sistema já batendo com a cabeça no teto. Aqui, da indigência de um sistema ainda com o pé direito no brejo.
Temos, segundo a Serasa, perto de 32 milhões de brasileiros com 43 milhões de contas em banco. Pouco mais de um terço da chamada população economicamente ativa, estimada pelo IBGE em 81 milhões. Uma subutilização coletiva dos serviços bancários. Ou se preferem: um elástico grande e frouxo, vulgo demanda reprimida, tal como tudo o mais na sociedade brasileira da desigualdade.
Voltando ao fio da meada: para ganhar escala e fazer musculação para a futura concorrência com os bancos estrangeiros de estatura global, os bancos brasileiros fazem da aquisição ou da incorporação de outras instituições financeiras uma estratégia de sobrevivência hoje e de concorrência amanhã.
Essa onda de incorporações no sistema financeiro cobre hoje o mundo inteiro. Ela dá carona a fusões e a alianças estratégicas entre bancos já com ativos de três dígitos em bilhões de dólares. Uma chusma de megaplayers com as duas mãos também no Brasil.


SECOS & MOLHADOS

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