‘‘Sanear os bancos estaduais é fácil. Difícil, para não dizer impossível, é sanear o viciado esquema político que estiola os bancos estaduais.’’
Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista
Sujeito a rombos
Que tal devolver o Banespa, devidamente filtrado e saneado, ao governo paulista? Os atuais titulares do Palácio dos Bandeirantes são responsáveis. E os futuros?
A vocação política dos bancos estaduais, em todo o Brasil, está em servir de Casa da Moeda aos governantes da vez. Exatamente o que andou ocorrendo nos últimos 15 anos de Muda Brasil. O Banespa foi usado e abusado nos governos Quércia/Fleury, fastígio do PMDB.
A bomba-relógio explodiu no colo do governo Covas, estrela do PSDB.
Mário Covas bem que tentou consertar os estragos. O governo devia ao banco mais de R$ 10 bilhões. E havia outros R$ 3,4 bilhões de ‘‘créditos podres’’ rodando pela praça nos bolsos do clientelismo de estatais, de prefeitos, de políticos e de empresários. Covas não deixou privatizar o banco doente e acabou sem opção, por aceitar a federalização do próprio.
Federalização ou hospitalização? Sim, o Banespa foi internado na UTI do Tesouro Nacional, há exatamente quatro anos, novembro de 1996. Ali, milhões de contribuintes brasileiros (que não foram consultados nem sequer avisados) tiveram de doar sangue orçamentário da Educação e da Saúde para o bancão estrebuchado.
Saneamento financeiro da ordem de R$ 11,4 bilhões, na soma dos créditos sem retorno com os rombos transferidos para a dívida estadual duramente renegociada com a União. Pois é. O Banespa já custou meio Proer. E ainda resta um belo esqueleto no armário: a caixa-preta do fundo de pensão dos 21.751 funcionários, com um desfalque atuarial de R$ 1,9 bilhão. Por enquanto.
Acho ridícula a discussão supostamente técnica do preço mínimo do Banespa para esse leilão tipo Dia de São Nunca. Primeiro, porque preço mínimo de leilão é preço-isca. E preço-isca é calibrado por variáveis subjetivas e não por planilhas contábeis. O que importa não é saber se o pedaço de 66%, 67% do banco vale menos de R$ 2 bilhões ou mais R$ 4 bilhões. E, sim, rezar para que um leilão acirrado arranque do vencedor pelo menos R$ 6 bilhões.
A discussão do preço mínimo, terreno minado por onde transitam liminares e cautelares de última hora, não tem levado na devida conta os custos sociais ou coletivos da hospitalização e do saneamento do Banespa nos cofres planaltinos. Sem essa intervenção federal, o Banespa não valeria hoje um real furado. Ele nem estaria sendo privatizado. Tal como outros 14 bancos estaduais, ele já teria sido simplesmente liquidado.


SECOS & MOLHADOS

mockup