Joelmir Beting
Os países que batem na cara do FMI quebram a mão. Os países
que beijam a mão dele quebram a cara.
Joelmir Beting, em Os Juros Subversivos (1985)
Evitando o pior
Os argentinos desconversam nos lares e nos bares sobre o contrato de ajuda externa costurado pelo FMI. Eles aprenderam com o peronismo ainda insepulto a detestar qualquer tipo de ingerência do Fundo nos respectivos assuntos internos: Sabemos errar sozinhos, diria um engravatado motorista de táxi estacionado nos arredores da Casa Rosada que não se pretende filial da Casa Branca.
A Argentina orgulha-se de não ter sido sócia-fundadora do FMI, inventado pelos americanos na sinistra mansão de Bretton Woods, em julho de 1945, canhões ainda vomitando fogo na Europa e no Japão. Com a derrubada de Perón, em 1955, a Argentina não esperou nem 40 dias e 40 noites para filiar-se ao FMI então por catequese acadêmica do professor Raúl Prebisch, o Bulhões deles.
Eis que o governo De La Rúa, do alto do sétimo pacote econômico em 11 meses de trono, deixa-se levar por um rasgo de pragmatismo político e assina com o FMI um acordo de transfusão financeira que pode oscilar, conforme a fonte, de US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões. O país vai precisar de US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões para servir o déficit externo em 2001.
Analistas argentinos lembram que o acordo terá um caráter meramente preventivo se reverter a fuga de dólares e restaurar a confiança do mercado global no programa de estabilização da moeda sem mudança no câmbio engessado. Os próprios investidores argentinos estariam aumentando seus ativos em dólar, dentro e fora da Argentina, no limite físico da paridade 1x1, que já dura 111 meses.
Ou seja: o peso conversível em dólar, por decreto, não é moeda confiável, suspiraria Domingo Cavallo para quem a moeda não confiável chama-se real e mora no Brasil. O economista Arturo Meneghatti lembra que o real foi covardemente atacado, em janeiro de 1999, justamente nas marolas do acordo preventivo de US$ 42 bilhões firmado pelo Brasil com o FMI (novembro de 1998). Por que seria diferente com a Argentina em novembro de 2000?
Do meu canto, lembro que o real não foi atacado no Efeito México (dezembro de 1995), no Efeito Ásia (outubro de 1997) e no Efeito Rússia (setembro de 1998). Mas teve de jogar a toalha no Efeito Itamar (janeiro de 1999). Sim, por cima e ao largo do guarda-chuva do FMI, o real não aguentou a moratória da República do Juízo de Fora. Como cada país endividado tem o Itamar que merece, eis que o ex-presidente Alfonsín volta à cena platina: moratória, já!
SECOS & MOLHADOS





