‘‘Se alguma coisa ameaça a democracia americana, não é o conflito e, sim, o consenso. Ou a inércia.’’
Gilles Lapouge, jornalista francês
Bananada low-tech
Única certeza, por enquanto: Bush ainda não venceu e Gore ainda não perdeu. A recontagem de votos na trapalhona Flórida, que é do ramo das trapalhadas eleitorais, remete este oitavo dia das apurações americanas ao padrão tecnológico (e jurídico) do século 18: o da contagem manual dos votos. Tal como se faz, ainda hoje, nas eleições fajutas de Angola, do Peru e da Chechênia.
Culpa do Itamaraty, suspira o embaixador José Botafogo Gonçalves. Durante palestra no Wilson Center, em Washington, sexta-feira, o diplomata brasileiro propôs a um auditório constrangido a importação de uma comitiva de Rondônia para ensinar a Flórida a fazer apuração confiável em menos de 24 horas após o fechamento da última urna. Yes, urna eletrônica made in Brazil. O Itamaraty, disse ele, não se lembrou de oferecer essa consultoria em tempo hábil.
Sim, nos planos do institucional, do operacional e do tecnológico, o Brasil tem muito a ensinar ao impoluto e opulento Tio Sam como fazer eleições democráticas diretas, sem tapetão jurídico vestido de colégio eleitoral. Que não é um colégio de freiras. Com apenas 270 delegados de um mesmo lado, esse arranjo tem o poder de ignorar a vontade da maioria da população e remeter para a Casa Branca de vergonha um presidente derrotado, ainda que por ‘‘escassa minoria’’.
Portanto, um presidente desfalcado da moeda política mais preciosa: sem cara de autoridade nem coroa de legitimidade. Tal hipótese, tornada verossímil, não estava no programa de Wall Street. Nem na tradição da imprensa americana, que se quer paradigma da multimídia mundial.
Resultado: o mundo todo, incluídos os governos mais corruptos e as ditaduras mais pegajosas, vai tirando o maior sarro da ‘‘democracia mais poderosa e mais próspera do planeta’’. A bizarrice política made in USA foi espalhada em tempo real e em raio global pela televisão e pela Internet. Um vexame pego em flagrante.
O balanço das urnas turvas aponta a trinca dos perdedores desse processo eleitoral de padrão Banana’s Republic: 1) os políticos em geral, posseiros do sufrágio universal pero no mucho; 2) os 83 milhões de poupadores em bolsa, sob a mira de uma crise financeira já inseminada no ventre de um impasse eleitoral não mais descartável; 3) o fiasco da imprensa movida a furos – cuja ética está na urgência e não na verdade (como se ao distinto público somente interessasse saber primeiro e não saber direito). Furem-se!


SECOS & MOLHADOS

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