Joelmir Beting
Não se deve planejar o futuro pelas regras do passado. A experiência é uma repetição e não uma sabedoria.
Edmund Burke (1729-1797), filósofo irlandês
A ordem é substituir
Um rombo cambial de US$ 6 bilhões, este ano, a caminho de US$ 10 bilhões em 2002, causa calafrios em Brasília. Não é a sangria reversível da conta-petróleo cujas importações tendem a cair em preço real médio e em volume de barris alheios. O vazamento até aqui inestancável é o das compras externas de componentes e produtos finais do chamado complexo eletrônico.
Bota complexo nisso. Ele se apóia no tripé som & imagem, computação & informática e telecomunicações em geral. Só em semicondutores, utilizados pelas três áreas, as importações cresceram 41%, de janeiro a outubro, aproximando-se de US$ 7 bilhões este ano. Ainda assim, não estão dando conta do recado. Há vazios de suprimento, comprometendo a montagem natalina de televisores, DVDs, celulares e computadores.
Como é que é? Sim, as fábricas não acreditaram na reativação do crédito e do consumo e tropeçam na escassez de componentes importados. Os celulares, mercado em explosão, contam com apenas 2% de peças made in Brazil. E disputam no grito placas de circuito impresso com fornecedores asiáticos que precisam de pelo menos 120 dias (do recebimento da encomenda lá ao desembaraço aduaneiro aqui) para a entrega da mercadoria.
Qual é a saída para o déficit comercial do setor? Reprimir as importações equivaleria a matar a vaca para acabar com o carrapato. O negócio é, toureando o desabastecimento de hoje, substituir as importações de amanhã. Ou seja: a médio e a longo prazos, produzir no Brasil os componentes até aqui importados. De preferência, com algum aporte de tecnologia desenvolvida entre nós.
Eis a exposição de motivos acaciana que recepciona a criação, esta semana, do Fórum de Competitividade do Complexo Eletrônico. Sob o guarda-chuva das políticas setoriais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o tripé da eletrônica passará a desfrutar de tratamento diferenciado e favorecido nos terrenos minados dos créditos e dos impostos. Com sobras para o desenvolvimento tecnológico e a capacitação de recursos humanos.
Parcerias do setor público com o setor privado, o Fórum joga com meta ambiciosa: substituir importações e turbinar exportações, deslocando a balança externa setorial do vermelho para o azul. Quando? No mais tardar, em 2005.
SECOS & MOLHADOS





