‘‘Para ampliar o emprego do trabalhador é preciso aumentar o salário do consumidor. Que é o próprio trabalhador.’’
Henry Ford (1863-1947), industrial americano
Começa a desforra
Sem mistério e sem grilo. Porque os empregos estão em alta, agora em novembro, pelo décimo mês consecutivo, as centrais sindicais estufam o peito e partem ouriçadas para a batalha dos salários, ainda em baixa.
Batalha dos salários? O certo seria dizer desforra dos salários. Pelo critério do homem/hora, no setor industrial de São Paulo, o salário médio de setembro de 2000, em dólar, rodou pelo índice 0,74 versus índice 100 plantado em 1990, ainda antes da recessão collorida do triênio 1990/92. Em matéria de competitividade nacional, eis aí um traço nunca lembrado do lucro Brasil na discussão rosca sem-fim do famigerado custo Brasil.
Competitividade? Há quem diga que salários ruins vestem a camisa da economia nacional de baixa eficiência a serviço de um mercado consumidor de baixa apetência. E quem perde escala no mercado interno acaba perdendo espaço no mercado externo. Afinal, mercado interno e mercado externo não são excludentes ou alternativos. Bem ao contrário, eles são complementares ou aditivos. Lição de Akio Morita, fundador da Sony, copiada furtivamente por Deng Xiaoping, reinventor da China.
O certo é que estamos reinstaurando nas relações trabalhistas o reinado das livres forças do mercado. Em novo ciclo de expansão dos negócios, o poder de barganha dos sindicatos desloca-se, progressivamente, da retaguarda da proteção dos empregos para a vanguarda da reposição dos salários.
De certa forma, negociar salários (nas vacas gordas) é mais tranquilo ou menos estressante que proteger empregos (nas vacas magras). A capacidade de mobilização das centrais e dos sindicatos, na briga pelos salários, cresce na horizontal da categoria e na vertical da empresa. Não é o que ocorre quando o emprego está a perigo. Na depressão, o sindicato enfia a viola no saco da mobilização emocionalmente chantageada e a empresa transfere a culpa para o governo, lavando as mãos, feito Pilatos.
Nesta terça-feira gorda, as centrais sindicais entram em ‘‘estado de greve’’, escoltadas por sindicatos de cobertura nacional. O batalhão exige aumento salarial linear de 20%, com redução de quase 10% na carga semanal de trabalho. É muito? É só o começo do que o sociólogo Robert Heilbroner chamaria de ‘‘guerra de redistribuição’’ entre o capital e o trabalho.


SECOS & MOLHADOS

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