‘‘Assim como os homens têm a idade de suas artérias, os governos têm a idade exata de suas finanças.’’
André Maurois (1885-1967), ensaísta francês
Outra crise importada
Por obra do petróleo alheio, o dólar escalou de R$ 1,78 para R$ 1,86. Por graça da Argentina zonza, a cotação avançou de R$ 1,86 para R$ 1,93. Tudo muito simples, não?
Claro que nem só de barris ou de tangos vive a especulação cambial para o alto. O ajuste purgativo da Nasdaq, a queda vexatória do euro e o conflito intermitente do Oriente Médio são outras causas externas da desvalorização já excessiva da moeda brasileira.
E a situação interna? Pelo lado da inflação, sinal verde pela proa. Pelo lado do PIB, uma reativação na toada de 4% ao ano pode ser encarada como sustentável para a travessia de 2001. Ora, esse cenário de crescimento econômico com estabilidade monetária era tudo o que todos os brasileiros vinham pedindo a Deus desde a ressaca do Efeito Tequila, em 1995.
Para o câmbio (e os juros), os complicadores por nossa própria conta e risco estão no sumiço anunciado do superávit da balança comercial e na recarga surrealista da Esqueletobrás S.A. Em janeiro, projetava-se um saldo de até US$ 4 bilhões. Já se admite um déficit de até US$ 200 milhões.
As contas públicas, ajustadas a ferro e fogo pelo corte de gastos essenciais e pelo aumento dos fardos fiscais, ensaiam mandar o brejo para todas as vacas no acerto contábil tardio (e correto) de 68,9% no saldo do FGTS. Guardado nos armários do governo Sarney e do (des)governo Collor, esse esqueleto seria hoje de R$ 38 bilhões.
Esqueleto menor (e não menos tétrico) é o da provável isonomia para todos os servidores federais do reajuste (mui justo) de 11,98% agora sacramentado para o pessoal do Judiciário. Essa caveira é da conversão salarial escamoteada da URV em Real, em julho de 1994.
Resumo da ópera cambial: para o alto, todos os demônios ajudam. Até mesmo o miado de leão da Moody’s. A classificadora internacional de riscos públicos e privados passou aviso prévio de que iria melhorar a cotação do Risco Brasil ‘‘ainda este ano’’. Na semana passada, ela decidiu por uma aliviada meramente cosmética, bem abaixo da expectativa do mercado. A mesma cotação de 1988, pós-moratória de Sarney...
O consolo: de janeiro de 1999 a outubro de 2000, o real registra de ponta a ponta uma desvalorização real de 26% em relação ao dólar. O festivo euro, no mesmo período, desfila um vexame real de 29%.
SECOS & MOLHADOS