Joelmir Beting
Eu não tenho dívida. O que eu tenho é crédito. Afinal, dívida não se paga. Dívida rola-se.
Darryll Zanuck (1902-1979), cineasta americano
Consumir ou investir?
NOVA YORK Os americanos não sabem se compram nas lojas ou se aplicam nas bolsas. Para resolver esse problema existencial, eles fazem as duas coisas ao mesmo tempo: consomem cada vez mais e investem como nunca antes.
Com que dinheiro? Com um salário médio de US$ 13,83 por hora trabalhada? Com o pé-de-meia herdado dos avós? Não. Eles fazem uso da própria lógica do sistema: gastam nas lojas parte dos ganhos nas bolsas. E complementam o pagamento das contas e a aquisição de ações também com os créditos generosos dos bancos.
Vamos por partes: consumo, poupança e crédito. Ou dívida. O consumo corrente de pessoas e famílias deve alcançar, este ano, a cota recorde de 67% do obeso PIB americano (de quase US$ 10 trilhões a dólar de julho). Esse leque vai do reforçado café da manhã à aquisição de micros, carros e casas.
A poupança financeira da população deslocou-se alegremente da renda fixa em banco para a renda variável em bolsa. A baldeação se faz por carteiras próprias, por fundos de pensão e por fundos e clubes de investimentos em ações. Outra lógica pura: nos anos 90, a renda fixa rendeu, em termos reais, 4,3% ao ano. As bolsas, 13,2%.
Resultado: o mercado em alta (bull market), prolongadamente, fez o número de investidores em ações disparar de 37,6 milhões, em 1990, para 83,4 milhões em junho deste ano, segundo pesquisa agora concluída da Securities Industry Association. Isto equivale a 52% da população adulta. Ou do eleitorado do mês que vem.
O mesmo estudo revela que a carteira de ações acaba de alcançar 26% do patrimônio doméstico, superando pela primeira vez o ativo imobiliário das famílias (24%). Em 1990, as ações respondiam por apenas 8% desse patrimônio coletivo.
A democratização da propriedade dos meios de produção, inaugurada no século 18 pelas ações da Colt e da Singer, ostenta hoje números ciclópicos. Aqueles 83,4 milhões de investidores são co-proprietários de 29% do capital social de 72.688 empresas emissoras de ações. Uma riqueza nacional estimada, em valor de mercado, ao redor de US$ 21,4 trilhões.
E as dívidas das pessoas e das famílias? Os americanos estão devendo US$ 6,7 trilhões nos bancos. Mais que as empresas (US$ 4,8 trilhões), informa a Securities Industry Association. Eles pagam juros de até 9,70% ao ano e ganham em bolsa algo mais que isso. No acumulado dos últimos 12 meses, faturaram 17,30% na Nyse e 51,20% na Nasdaq já incluído o ajuste técnico de Wall Street.
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