Joelmir Beting
Nosso governo tornou-se demasiadamente pequeno para os grandes problemas e demasiadamente grande para os pequenos problemas.
Daniel Bell, sociólogo americano.
O doce problema
Nova York A sociedade americana está passando de déficits públicos monumentais, desde o século 19, para superávits fiscais estrepitosos, nesta primeira década do século 21. E não por aumento de impostos. E, sim, por redução de gastos.
Melhor ainda: a redução de gastos se faz por ganhos de produtividade do setor público e não por canivetadas meridianas da autoridade monetária. Diz o analista Robert Henderson que, no governo federal, na maioria dos Estados e nas prefeituras de grandes e médias cidades, cada dólar já está fazendo o trabalho de um dólar e não mais de 70 centavos ou menos.
Houve, segundo ele, um despertar de cidadania em relação aos tratos da coisa pública: Contribuintes despertos dentro dos consumidores são os mais severos dos democratas e os mais atentos dos eleitores. Essa é a mesma mudança política que se observou anteriormente em relação aos direitos civis, aos orçamentos militares, à defesa do consumidor e à proteção do meio ambiente.
A década de 90 pode ser apontada como sendo a da transição do déficit endêmico para o superávit sustentável. Ao longo dela deu-se o máximo de modernização do setor privado e o início da reorganização do setor público - a tal de reinvenção do governo, como prefere discursar Bill Clinton em véspera de eleição.
Eis que, na atual campanha presidencial para as urnas de novembro, a questão orçamentária canta mais alto nos palanques e nos debates: como, quando e onde aplicar as sobras de caixa do Tesouro, projetadas para US$ 4,2 trilhões até 2009.
Um doce problema. Porém, não menos complicado que a velha questão já resolvida de como compatibilizar longo ciclo de prosperidade econômica com sólida estabilidade monetária e relativa neutralidade fiscal. Ou mais próximo do eleitorado: a questão já resolvida de como expandir a produção, o consumo, o emprego e o salário sem abrir a jaula da inflação de demanda.
Economistas neokeynesianos defendem a aplicação do excedente orçamentário na reforma do Estado americano em seus três níveis. Algo na linha retórica do Estado Ótimo, contra o modelo neoliberal do Estado Mínimo e a utopia neoestatal do Estado Máximo.
Nos gabinetes regionais do Fed (banco central americano) teme-se pela rebrota da gastança pública em Estados e municípios que se pilham também refestelados sobre folgas de caixa atuais e futuras.
SECOS & MOLHADOS





