‘‘A democracia é uma fantasia política legitimada pela aritmética eleitoral.’’
Ambrose Bierce (1842-1914), escritor americano.
Na reta de chegada
NOVA YORK – Pesquisas eleitorais e debates televisivos ainda não endossaram o favoritismo do democrata Albert Gore nem a recente virada do republicano George Bush nas urnas de novembro. Mas é bom lembrar que o eleitorado americano vota com o bolso e não a fim de arriscar mudanças de rumo ou de ritmo na prosperidade nacional - que já dura toda uma década.
‘‘Não se deve mudar o time que está ganhando’’, diria o filósofo peboleiro Neném Prancha. Pois outra não tem sido a sentença quase unânime dos analistas políticos do Tio Sam. Dizem eles que o Partido Democrata tem o pão, a salsicha e a mostarda na mão para engatar seu terceiro mandato consecutivo no salão oval da Casa Branca.
O consultor Marshall Wittman, do Instituto Hudson, radicaliza: ‘‘Há um inacreditável contentamento coletivo na sociedade americana. Tamanho capital político elege fatalmente o candidato do presidente – qualquer que seja o candidato e qualquer que seja o presidente.’’
Faltou acrescentar: qualquer que seja o candidato oponente. A menos que Gore fosse muito ruim e Bush muito bom. Se não tem luz própria, Albert Gore nada fica devendo pessoalmente ao cacife populista do presidente Bill Clinton – eleito e reeleito sem sufoco. E o texano Bush, filho do então presidente que teve a reeleição barrada por Clinton, não tem estilo nem discurso para virar o jogo por conta própria.
O programa da oposição republicana é reticente e não dispõe de ‘‘punch’’ suficiente para encorpar a figura do júnior George Bush. Não bastasse trombar com o já longo ciclo de prosperidade econômica com estabilidade monetária, a oposição tem uma segunda pedreira pela proa: o grande superávit orçamentário do governo Clinton.
Eis a questão eleitoral de fundo: a prosperidade econômica, sobre ser consistente e sustentável, não se fez pelo doping ligeirinho da gastança pública irresponsável. E mais: a) cresceram os lucros das empresas sem passar pela alta dos preços de mercado; b) cresceram os empregos sem apelar para a baixa dos salários.
O problema eleitoral de Gore é que esse milagre econômico sem aspas não foi produzido por economistas e burocratas e muito menos por algum Plano Clinton. A façanha deve ser atribuída a engenheiros, empresários, executivos e profissionais de todos os níveis – os que espancaram a letargia do capitalismo opulento e acomodado a golpes encavalados de modernização obsessiva e de competição paroxística. A austeridade monetária de Greenspan e a neutralidade fiscal de Clinton serviram apenas para acalmar investidores e contentar economistas.


SECOS & MOLHADOS

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