‘‘No fundo, não existe crime organizado. O que existe é Estado desorganizado.’’
Fernand Braudel (1902-1985), historiador francês.
Até quando?
Acordo automotivo com a Argentina? E por que não um acordo automotivo com o Paraguai? O segundo, nem sequer imaginado, seria até mais importante que o primeiro, ainda enovelado. Alguém dirá: a proposta é esdrúxula porque o Paraguai não produz automóveis nem autopeças. Ocorre que o Paraguai é o maior receptador do mundo de carros roubados fora do país – quase todos afanados aqui no Brasil moleirão. Incluído o vasto negócio lateral de autopeças fornecidas por desmanches de carros roubados instalados em nossa Gandaiabrás S.A.
A coisa é tragicômica. A frota paraguaia de automóveis, para uma população de quase 5 milhões, já é de 610 mil unidades. Pois exatamente metade dela (306 mil) circula sem registro legal nem certificado de origem. A documentação a bordo é fajuta.
Autoridades de Assunção ressalvam: dos 306 mil clandestinos, perto de 70 mil foram adquiridos no exterior e entraram no país pelas pavimentadas pistas do contrabando, esporte nacional. Ou seja: 236 mil fazem o chamado ‘‘produto do roubo’’.
O que tem feito o governo brasileiro para cobrar do governo paraguaio medidas de choque para amainar a receptação escancarada de carros e peças – negócio mais próspero que o da pirataria de bebidas, cigarros, cosméticos, confecções, brinquedos, discos e vídeos? Coisa nenhuma.
A questão é de estado de guerra. O roubo de veículos é feito no grito, na bala e no sangue. Provoca perdas humanas, perdas materiais e graves danos físicos e emocionais. Indiretamente, deixa toda uma sociedade em pânico permanente. Não é ou não deveria ser tratado como assunto meramente policial.
Nossa Roubobrás S.A. arrota para este ano uma ‘‘produção’’ recorde de 410 mil unidades. Ou 12% maior que a de 1999, segundo as inseguras seguradoras do ramo. O Paraguai constitui o maior mercado cativo de receptação. O que supõe algo mais que a omissão do Estado brasileiro casada com o vácuo de autoridade no terreiro paraguaio. Há a cumplicidade remunerada de funcionários da Polícia e da Justiça em ambos os lados dessa fronteira de ninguém.
A receptação de carros roubados, a exemplo da receptação de cargas roubadas, por oficinas e por lojas, não raro de fachada legal, deveria mobilizar algo mais que a Polícia Federal – também a Receita Federal.


SECOS & MOLHADOS