‘‘Os brasileiros acalentam três sonhos na vida, pela ordem: 1) o carro usado; 2) o carro novo; 3) o carro importado.’’
Caio de Alcântara Machado, criador do Salão do Automóvel
Trocando de marcha
Sobre as vacas magras do ano passado, as montadoras esperam fechar o ano com expansão de 25% na produção e de 3% no emprego. A produção maior faz uso da capacidade ociosa das fábricas antigas e da ignição das fábricas novas. Ela responde tanto à reação do mercado interno como ao avanço das exportações.
O aumento do emprego é atribuído à abertura das novas linhas de montagem. As fábricas já existentes se serviram da flexibilização da jornada de trabalho: 1) terceiro turno; 2) horas extras; 3) banco de horas. O saldo líquido está em novos ganhos de produtividade por trabalhador empregado.
As montadoras desconversam sobre a variação de salários, custos, preços, lucros e/ou perdas. A Volkswagen é a única que admite estar operando ainda no vermelho-rosa. Ano passado, segundo a Trevisan Consultores, as quatro velhas senhoras (Volkswagen, Fiat, Ford e GM) contabilizaram, em bloco, R$ 3 bilhões de prejuízos.
A erosão da rentabilidade (de resto, fenômeno universal no setor) é atribuída entre nós à crescente fatia do carro dito popular no ‘‘mix’’ de produção de todas elas. Os modelos básicos aturam margens estreitas nas fábricas e faíscam descontos e promoções nas lojas. A manada cobre hoje 70% das vendas totais.
Diga-se, a bem da verdade, que os carros do primeiro degrau, com motor de 1.0 litro, ganharam em torque, conforto e segurança. O que era um simples nicho tupiniquim para marcas globais é agora tratado como experimento tecnológico para aplicação em outros mercados. Até a heráldica Mercedes escolheu o Brasil para seu primeiro ensaio de carro popular.
Dona do vitorioso Corsa, a GM aplica um segundo choque na faixa do popular. O recém-lançado Celta antecipou-se ao Salão 2000 e balançou a concorrência, empurrada para uma nova ‘‘guerra de preços’’. E para uma nova onda de ‘‘face lift’’ (reestilização) dos modelos em linha.
No mais, a desaceleração das vendas nas últimas três ou quatro semanas guarda relação com a vigília do Salão 2000. Pelo lado da oferta, as montadoras retardam para a passarela do Anhembi a troca anual da linha, normalmente realizada em agosto e setembro. Pelo lado da demanda, os consumidores protelam a decisão de compra no aguardo desse pirotécnico ‘‘show-room’’ de todas as marcas, com todos os modelos, a um só tempo, no mesmo lugar. A partir de amanhã.


SECOS & MOLHADOS

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