‘‘O homem moderno é um animal de quatro rodas formado por quatro partes: cabeça, tronco, membros e automóvel.’’
Gonçalo Parada (1931-1986), jornalista
Mercado guinchado
Guinchado pela carência de crédito ajuizado e pela carga tributária asinina, o mercado brasileiro de carros novos obriga-se a um desafio permanente de física aplicada: erguer-se do chão puxando os próprios cabelos. Objeto de desejo e de alto valor unitário, carros novos e usados trafegam, em meio mundo, com impostos mínimos e créditos baratos.
Além dos seguros tranquilos, com baixo índice de sinistros em trânsito e reduzida ocorrência de furtos, roubos, sequestros e vandalismos. E mais: o cidadão motorizado desfruta de alternativas na condução coletiva civilizada e no transporte interurbano idem.
Nos Estados Unidos e no Japão, com renda per capita de quase US$ 33.000 (nove vezes maior que a nossa), os tributos não passam de 8% dos preços finais. Os financiamentos bancários, além de superalongados nos prazos, são generosos nos juros. E juros dedutíveis do Imposto de Renda!
Sem essa cenoura dourada, a clientela debandaria em massa para o leasing operacional. Que bicho é esse? Simples: você usa o carro zero ‘‘emprestado’’ pelo banco e devolve o carro ao banco no prazo contratado – retirando outro carro zero igualmente alugado.
Assim turbinados e returbinados, os distribuidores americanos não sabem o que é venda à vista. O esquema consegue fertilizar a troca anual ou bienal de modelos dentro de um mercado literalmente saturado, com índice de motorização abaixo de 2 habitantes por veículo. Algo parecido ocorre no Japão e na Europa.
Aqui no Brasil, vamos para as luzes de um novo Salão do Automóvel, a partir do feriadão, festejando a convalescença do mercado interno naquela base mui jucunda do ‘‘se ainda não melhorou, pelo menos já parou de piorar’’.
Pela nossa renda per capita (em torno de US$ 3.300) e pelo nosso baixo índice de motorização (acima de 12 habitantes por veículo), o mercado interno deveria estar absorvendo, em terceira marcha, mais de 3 milhões de unidades por ano. Claro, se estivesse rodando pela isonomia internacional de tributos, créditos e seguros. Pois não tem passado de metade disso.
Nem poderia ser diferente. A carga fiscal amoitada no preço final não passa de 40% na média do ‘‘mix’’ de fabricação. Chegou a 93% no Cruzado 2 (novembro de 1986), incluído o empréstimo compulsório de 30% – que não nos foi devolvido até hoje.


SECOS & MOLHADOS

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