‘‘O futuro não é o que se teme. O futuro é o que se ousa.’’
Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista e político
Ela pensa grande
A Petrobrás pretende refinar petróleo brasileiro nos Estados Unidos.
Até parece samba de crioulo doido. Trata-se de mais uma ousadia estratégica da estatal brasileira. Que não esconde sua intenção de se transformar em empresa global – ela que já é, pelo total dos ativos, a sétima maior companhia de petróleo do mundo. Ou a quinta, em reservas provadas.
Sem largar o ‘‘status’’ de empresa estatal, ‘‘a Petrobrás cuida de ser cada vez mais moderna, eclética, transparente e competitiva’’, discursa seu presidente Philippe Reischstul. De resto, uma corrida contra o relógio da iminente abertura total do setor, ao fim e ao cabo de quase meio século de reserva de mercado sob monopólio estatal.
Mas fazer refino nos Estados Unidos? Com petróleo de Campos exportado pela matriz brasileira e importado pela subsidiária americana? Esquisito, não?
Pois a Petrobrás desfila uma exposição de sete motivos. Primeiro: 80% de nossas reservas já comprovadas são as dos achados ‘‘off-shore’’ na Bacia de Campos. Segundo: por um capricho da natureza, as jazidas nessa área, sob lâminas d’água de até 2.800 metros (‘‘ultra deep waters’’, no jargão do ramo), são de petróleo pesado. Terceiro: óleos pesados têm menor cotação ou menor aceitação no mercado internacional. Quarto: o refino de tais óleos exige tecnologias adequadas.
Quinto: titular de reservas de óleos pesados e de tecnologias modernas de refino dos próprios, a Petrobrás não teria como exportar, vantajosamente, o produto em estado bruto – mas teria como refinar lá fora os respectivos derivados.
Sexto: a Petrobrás investe pesadamente na conquista da auto-suficiência nacional e não descarta a idéia de desovar no mercado internacional os prováveis excedentes de óleos pesados. Nessa desova, também para troca com óleos leves, seria mais econômico operar refinarias no insaciável mercado dos Estados Unidos do que ampliar, na mesma medida, o parque de refino no Brasil.
Sétimo: na carpintaria dessa estratégia, a empresa não pensa em construir refinarias nos Estados Unidos. Ela arrendaria refinarias já existentes em contratos de parceria tecnológica (e mercadológica) com operadoras americanas. Diga-se de passagem que a Petrobrás já opera, desde dezembro, duas refinarias na Bolívia.
E acerta com a Repsol/YPF negócios de refino também na Argentina.


SECOS & MOLHADOS

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