Joelmir Beting
O mais importante na economia das nações não é a situação em que ela se encontra, mas a direção na qual ela se move.
Raúl Prebisch (1901-1986), economista argentino
Parceria alemã
Em sua quarta visita à Alemanha, o presidente Fernando Henrique Cardoso leva na bagagem a discussão bilateral do projeto de criação da área de livre comércio entre Mercosul ampliado e União Européia. Assunto que será igualmente tratado, neste fim de semana, em Brasília, por negociadores de ambos os blocos.
Lideranças do Mercosul continuam cobrando uma posição mais flexível (para não dizer menos ranzinza) da União Européia para um futuro acordo no setor agrícola. E questionam a desvalorização exagerada do euro em relação ao dólar. Para Brasil e Argentina, uma barreira cambial sibilina, maior que a execrada barreira tarifária. Tal como Fernando Henrique Cardoso, o chanceler alemão Gerard Schroeder também deplora a queda do euro (30%), maior que a queda do real (28%), em termos reais.
Ainda em Berlim, o presidente FHC vai sondar um provável financiamento alemão para a construção da Usina Nuclear Angra III, clone da Angra II, projetada pelos alemães da KWU/Siemens. Novas parcerias bilaterais com a Alemanha serão tratadas, nos dias 9 e 10, em Berlim, na reunião da Comissão Econômica Brasil-Alemanha.
Guardadas as devidas proporções, também para os alemães o pior já passou. A indigestão provocada pela adoção forçada do caixão sem alças do lado oriental petrificado começa a refluir. Cada alemão do outro lado do muro teve de ser literalmente absorvido por quatro alemães do lado de cá (os wessies). Esse Plano Robin Hood já passa, em dez anos, de US$ 835 bilhões. Ou US$ 7 bilhões por mês.
Pois os 17 milhões de adotados (os ossies) ainda reclamam. Descobrem-se cidadãos de segunda classe no mercado de trabalho (ainda que sob o guarda-chuva do seguro social mais caro do mundo). A taxa de desemprego aproxima-se de 19%, o dobro da opulenta economia da banda ocidental. O salário médio é um terço menor e a contribuição para o PIB alemão não passa de 10%. Ou seja: um quinto da população realizando apenas um décimo da produção.
Até onde vai esse contraste herdado do Muro? Sociólogos alemães são mais céticos que os economistas e os burocratas. Eles deitam falação sobre a falta de cultura de empresa, de cultura de mercado e de cultura de trabalho para explicar a anorexia econômica da antiga Alemanha Ocidental. Idêntica falha tectônica estaria sabotando a passagem de russos e ucranianos da falida economia de comando para a abrasiva economia de mercado. Mas não é o que ocorre com poloneses, checos e húngaros...
Para os ossies, a substituição do desejado marco pelo amolecido euro serviu apenas para aumentar a aflição dos aflitos.
SECOS & MOLHADOS





