Joelmir Beting
O Brasil não pode continuar correndo o risco de se tornar obsoleto antes de ficar pronto.
Claude-Levi Strauss, antropólogo francês
Medalha de chumbo
Afinal, qual deve ser a camisa do Guga no pódio de Sydney?
A da Olimpikus? A da Diadora? A do COB de Gusman? Na briga por causa dela, antes da viagem, todos perderam. Foi um festival de amadorismo fantasiado de superprofissionalismo. E deu no que deu: um Guga desmedalhado. Ou descamisado.
E o que dizer do futebol verde-amarelo de vergonha? O vexame não foi ter perdido de um Camarões jogando com nove. Penso que a desvantagem numérica era nossa. O Brasil andou jogando desfalcado de quatro craques jovens que se omitiram, de três craques veteranos que não foram convocados e de toda uma comissão técnica atrelada por controle remoto a empresários ladinos e patrocinadores espertos.
O calendário até que era supimpa. Um mesmo time-base, com três veteranos a bordo, faria as eliminatórias para a Copa e para Sydney. A primeira empreitada, sem risco: dá para embarcar em 2002 com passaporte de até quinto colocado em 2000.
Pois cadê o time-base? Foram convocados 114 jogadores em seis meses.
Se um investidor maluco depositar 114 craques no Flamengo ou no Corinthians, que time sairá desse Butantã? Na seleção, o desfile de um único jogo pode valer milhões de dólares na ficha do craque ou no cofre do clube. Perdão: no bolso do empresário ou no retorno do patrocinador.
A questão é de fundo cultural. Temos complexo de cultura da abundância no futebol, assim como na floresta, na lavoura, na energia elétrica, na água encanada... E tome aquele desperdício encavalado de recursos materiais e humanos num Brasil rico que teima em levar vida de pobre.
No futebol profissional, maior produto global da poderosa e moderna economia do entretenimento, exige-se profissionalismo dentro e fora do campo: atletas, técnicos, auxiliares, cartolas, empresários, investidores, patrocinadores. Pois não temos passado sequer pelo teste de uma convulsão do Ronaldinho. Ou de uma convocação do Romário. Ou de uma provocação de Camarões. Detalhes aviados com trapalhadas estrepitosas. E desastrosas. Elas nos custaram uma Copa do Mundo e uma medalha de ouro.
O vexame técnico (ou tático) maior, na Austrália, foi o de não se conseguir fazer do limão uma doce limonada: a da exploração inteligente da linha de impedimento do adversário. Mui justamente chamada, em todas as línguas do planeta-bola, de linha burra. Sabe lá o que é perder a pose para uma linha burra?
SECOS & MOLHADOS





