‘‘Não é triste a gente mudar de idéia. Triste é não ter idéia para mudar.’’
Aparício Torelly, barão de Itararé (1895-1971)
Remorso cívico
Na instalação da plenária conjunta, hoje, em Praga, o FMI e o Banco Mundial vão comunicar, solenemente, aos 182 países associados, que o ‘‘focus’’ de ambas as instituições vai mudar de prumo e de rumo na largada do século 21. Yes, tudo pelo social! Tudo pelos pobres! Tudo pelos fracos!
Sob a direção do financista alemão Horst Koehler, o ‘‘novo’’ FMI deve anunciar medidas concretas para levar os países credores do bloco da opulência a decretar o perdão das dívidas contratadas por países inermes do bloco da indigência. Na linha do que reitera, em homilia, o papa João Paulo II. Que tem agora, na assessoria financeira do Vaticano, nada menos que o ex-diretor-geral do FMI o francês Michel Camdessus.
Ao vestir a camisa do perdão das dívidas dos países indigentes, decisão tomada agora com pelo menos uma década e meia de atraso, o FMI discursa sobre o combate à miséria com a mesma cara limpa de militantes franciscanos. Faltou dizer como a burocracia do Fundo espera auditar as contas e os planos dos governos ‘‘perdoados’’. Não raro, governos ditatoriais e corruptos, agora sob o guarda-chuva político do ‘‘moral hazard’’ dessas novas promessas made in Praga.
Para mostrar que está a fim de falar grosso e falar certo, o FMI exibiu ontem dois troféus de guerra: 1) monitorou um acerto de emergência no interior do G-7 para revalorizar o euro no mercado cambial em liberdade; 2) pressionou o mesmo G-7 na usinagem de uma ação orquestrada para desvalorizar o petróleo.
Levantar o queixo do euro é fácil: os governos fazem reservas na moeda européia. Rebaixar a crista do petróleo também é simples: os governos desfazem reservas no precioso líquido. No caso, reservas estratégicas para a eventualidade de uma nova fuzarca militar no Oriente Médio. Onde barris de petróleo dão liga com barris de pólvora.
Reparem que, tanto no euro como no óleo, o FMI está cuidando das cólicas dos países ricos. Claro, em nome da retomada do crescimento global, em benefício também dos países pobres, dos emergentes e dos submergentes.
O que pensa disso um país pobre chamado Nigéria, encharcado de óleo e membro da Opep? Ela fatura em petrodólares e compra alimentos e remédios na Eurolândia. Vai perder duplamente: no reverso do óleo forte e no reverso do euro fraco.
O Banco Mundial, sentado no cofre, trabalha mais com o recurso e menos com o discurso. Mas manda aviso aos governantes e navegantes: projetos da área social passam a merecer até 80% de seus empréstimos favorecidos. Heureca! Prioridade tardia para saúde pública, saneamento básico, educação pública, habitação popular, transporte público, proteção ambiental e segurança pública.


SECOS & MOLHADOS

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