Joelmir Beting
Não estou assinando uma certidão de nascimento. Estou assinando, isto sim, um atestado de óbito.
John Maynard Keynes (1883-1946), na ata de fundação do FMI
Reina e não manda
Sitiados pela picaretagem ideológica e arruaceira de militantes da antiglobalização, os ministros e burocratas dos 103 países que participam da anódina assembléia anual do FMI e do Banco Mundial, em Praga, passam a discutir, literalmente, todos os problemas do mundo sem juízo. Ritual manjado: comitês interinos preparam temas para apresentação em plenário e os debates acabam gerando mais calor do que luz. Tal como fazem, do lado de fora, os Dom Quixotes da baderna televisiva.
Organizações multilaterais de governos para governos, FMI e Banco Mundial têm na economia e na sociedade o mesmo poder de intervenção das repartições da ONU. Ou seja: poder nenhum. A menos que se atribua ao minguado orçamento do Banco Mundial a capacidade de acabar com a miséria, a exclusão e a violência nos países supostamente assistidos pelos cofres da instituição.
E o que dizer do FMI? Inventado pelos americanos, em julho de 1944, com canhões ainda vomitando fogo em meio mundo, o Fundo Monetário Internacional veio ao pós-guerra para estabelecer e administrar uma banda cambial planetária, fiadora da convergência macroeconômica de países ricos, pobres e remediados, tocados por governos abertos ou fechados.
Pois o FMI jamais conseguiu disciplinar as moedas. De xerife do câmbio pactuado, descambou para o papel subalterno de auditor de confiança dos países credores nos planos e nas contas dos países devedores. O solene sistema monetário global, partejado naquela conferência de Bretton Woods, tornou-se refém do dólar americano, vestido de moeda universal lastreada no ouro de Fort Knox.
A primeira grande crise cambial, a da vetusta libra inglesa, em 1967, foi o tiro de partida para a desmoralização técnica (e política) do FMI. Em 15 de agosto de 1971, o desenlace: o salão oval da Casa Branca abandonou o lastro-ouro do dólar. E o board do FMI, a cinco quadras de distância, só ficou sabendo desse Nixon Schock pelo noticiário noturno da televisão. Na mesma noite, madrugada em Paris, Charles de Gaulle, último arauto do padrão-ouro, teve um ataque de apoplexia. Cumpria-se a Maldição de Keynes, voto vencido em Bretton Woods.
Em bloco, a Europa refugiou-se numa banda cambial própria, então apelidada de serpente européia. Um ensaio para o que viria a ser, em janeiro de 1999, a primeira moeda comum do megabloco de 11 países: o euro. Sem o peso da libra inglesa, o euro já acumula, em 21 meses de carreira, uma desvalorização real de 28% em relação ao dólar. Exatamente, a mesma desvalorização real, no mesmo período, do nosso real pós-banda.
SECOS &MOLHADOS





