Joelmir Beting
A modernização da economia não provoca a redução de empregos. Ela promove é uma migração de empregos.
Daniel Burrus, consultor americano.
Emprego sem mágica
Querer exigir da indústria brasileira novos choques de produtividade juntamente com novos saltos de empregabilidade é o mesmo que cobrar de um mago de circo que se erga do chão puxando os próprios cabelos.
No atual estágio da economia brasileira, essa mágica deve ser reclamada da escola e não da fábrica. O parque industrial brasileiro incluídas as subsidiárias de 414 múltis aqui instaladas serviu-se da proteção cartorial de quatro décadas e da substituição forçada de importações literalmente proibidas para cevar um sistema produtivo de pouca inovação e baixa eficiência. Do que resultou um mercado de trabalho feito de empregos ruins com salários péssimos.
Por volta de 1990, a indústria paulista empregava uma força de trabalho com escolaridade média de 3,9 anos. Hoje, quase uma década de safanões de modernização e de pescoções de concorrência, a coisa já é de 6,2 anos. Porém, ainda na poeira da Argentina (9,4), da Coréia (14,8) e da Alemanha (16,7).
No Seminário Qualidade Brasil, em São Paulo, o presidente Fernando Henrique Cardoso festejou indicadores da CNI e do IBGE, dando conta de que os ganhos continuados de produtividade das fábricas brasileiras de quase todos os ramos estão destruindo menos empregos do que se imaginava. A oferta de vagas, no primeiro semestre, chegou até mesmo a superar em 0,1% o sumiço das próprias.
Faltou dizer que esse efeito estatístico resultou não do amortecimento do desemprego tecnológico (e funcional), mas de um aumento real de 6,8% da produção com o uso da capacidade instalada subindo de 78% para 81%.
A questão de fundo é meridiana: a expansão do mercado de trabalho no Brasil não vai mesmo passar pelo setor industrial. Tal como na agricultura moderna, desde os anos 20, não é mais função da indústria moderna sustentar e expandir empregos diretos. A menos que o PIB industrial brasileiro venha a crescer, sustentadamente, acima de 10% ao ano. O que exigiria saltos pirotécnicos de competitividade aqui dentro e lá fora.
A missão da indústria moderna está em realizar produtos cada vez melhores a custos cada vez menores. Isso amplia o mercado interno, desbrava o mercado externo e, fechando a roda, fertiliza a reprodução do emprego na economia de serviços. Ou seja: no balanço do mercado de trabalho total, dá-se a migração e não a extinção de empregos. Algo mais que o mero êxodo da mão-de-obra descartável para os desvãos da economia informal.
SECOS & MOLHADOS





