Joelmir Beting
No mercado mundial de petróleo, governos e empresas buscam bem mais que o lucro principalmente, o poder.
François Perroux (1903-1987), economista francês.
Barris da histeria
A estatística é a técnica de torturar os números até que eles confessem... Assim sendo, falta torturar os números do petróleo sem juízo. Dá para explicar a força residual da Opep? Ora, é sabido (pero no mucho) que o cartel de 11 países exportadores controla hoje nada além de um terço da oferta mundial. Nos anos 70, tempo de oil shock, controlava dois terços.
Vamos aos números da Agência Internacional de Energia (AIE): a oferta mundial, em agosto, foi da ordem de 78 milhões de barris por dia (para uma demanda global de 76 milhões). A Opep respondeu por apenas 25,8 milhões da oferta total. E deve ampliar essa tranche para 26,2 milhões a partir de outubro.
Ela acaba de fazer o maior show de parque temático em Viena para conceder ao mundo de joelhos um aumento de 3,1% de sua fatia de 34% do mercado mundial. Será que tamanho refresco teria massa crítica para rebaixar as cotações do barril tipo brent para menos de de US$ 27, média do primeiro semestre?
O que estão fazendo (ou deixando de fazer) os donos dos outros dois terços do mercado? Eles estão lavando as mãos lambuzadas de óleo e recheando as burras da ganância privada (nos lucros) e da gastança pública (nos impostos). Claro, botando a culpa na Opep.
O cartel finge rechaçar essa bola quadrada, estufando o peito de orgulho. Ou de sensação de poder. Domingo, a televisão exibiu em todas as línguas, desde Viena, os 15 minutos de fama do príncipe do Catar do alto de sua oferta total de 390 mil barris por dia.
Que tal deixar a Opep em paz e apoiar a rebeldia fiscal dos europeus na bomba da esquina? Ah! Em outubro de 1970, em Estocolmo, o professor Gunnar Myrdal (1898-1987), Prêmio Nobel de Economia de 1974, disse-me o seguinte: O europeu é, antes de tudo, um contribuinte. E o contribuinte acaba sendo o mais severo dos democratas. Cuidado com ele!
Pois, na União Européia, a carga fiscal amoitada no preço final da gasolina e do diesel oscila de 61% na Espanha a 76% na Noruega e 83% na Inglaterra. O detalhe: Inglaterra e Noruega são os únicos produtores de petróleo do megabloco europeu.
O que tais números confessam? Eles mostram que a Opep é mera cortina gasosa para camuflar a gula fiscal dos governos ligeirinhos, fantasiados de socialistas. Um confisco insensato, ruidosamente apoiado pelos ecologeiros do imposto verde.
E o que dizer da ganância privada igualmente enfiada sob o tapete árabe da Opep? Ganância dos especuladores sentados em estoques e forrados com títulos de petrolíferas e afins.
Secos & Molhados





