Joelmir Beting
Vivemos a civilização do conhecimento, mas não a da sabedoria. Sabedoria é o conhecimento temperado pelo juízo. Cadê o juízo?
Juliano Bastide, sociólogo.
Muito verbo, pouca verba
Com a presença de uma centena e meia de chefes de Estado, a ONU hospeda, desde ontem, em Nova York, a Cúpula do Milênio. Na retórica diplomática inconseqüente da burocracia universal, busca-se em apenas três dias de discurseira, em plenário entediado, repassar alguns cenários políticos, econômicos e sociais para o século 21. De sobremesa, idéias ainda opacas sobre uma nova ONU.
No plano técnico, até que a ONU dá conta do recado. Destaque para a FAO (agricultura e alimentação), para a OMS (saúde e saneamento) e para o Unicef (infância e pobreza). Já a Unesco (educação e cultura) deixa a desejar. E o Pnud e a Unctad (pesquisa e planejamento) carecem de prestígio político. São atropelados pelo think-tank de duas megaorganizações multilaterais de governos: o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird). Pnud e Unctad têm o verbo. FMI e Bird têm a verba, além do verbo.
O problema de fundo da ONU é precisamente a falta de fundo. O orçamento dela é cobertor de pobre. Com direito a excesso de gastos, patrocinado por furos de auditoria. Como qualquer governo que dela faz parte. Questão ligada a uma virose ainda sem cura - a do vírus burocratus parvus. Que não faz distinção de país rico, pobre, emergente ou submergente.
No plano político, prioridade primeira, a ONU tem a mesma autoridade da rainha Elizabeth: reina, mas não governa. O tal de Conselho de Segurança, disputado por todos os países de nariz empinado, nada tem de conselho e muito menos de segurança.
Em 55 anos de carreira, as barbas da ONU fizeram sombra a 127 conflitos bélicos entre os distintos pares, empilhando cerca de 32 milhões de cadáveres, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres. Sem contar, claro, as desgraças sociais e os desastres econômicos desencadeados por tais conflitos.
E o que dizer dos gastos da Defesa Nacional dos 197 filiados da ONU? No planeta da miséria e da fome, tais gastos aproximam-se de US$ 750 bilhões por ano. Na África, quanto mais atrasado o país e mais desgraçada a população, maior o orçamento militar e maiores os índices de corrupção e de opressão. O que a ONU tem feito por eles?
Os burocratas da ONU, a exemplo dos burocratas do FMI, comportam-se como as formigas da fábula dos moicanos canadenses. Seguinte: as formigas aboletadas em um tronco que desce a corredeira do rio imaginam que estão dirigindo o tronco...
SECOS & MOLHADOS





