Joelmir Beting
O grande desfecho civilizatório, num futuro não mais distante, será o triunfo da moral e da ética sobre o poder e a política.
Fernand Braudel (1902-1985), historiador francês.
Plebiscito da gastança
Plebiscito nacional sobre a dívida externa. E por que não um plebiscito nacional sobre a gastança pública? A primeira é um mero subproduto da segunda. E a segunda tem como DNA um setor público desconjuntado, perdulário e corrompido.
Na coluna de ontem, vimos como a dívida externa andou financiando algo mais que planos e obras mal priorizados, mal elaborados, mal contratados, mal executados e mal auditados.
Ela igualmente deu cobertura a rombos, desvios, propinas e desperdícios de toda ordem na ditadura e na abertura. Cada dólar acabou realizando o trabalho de 50 centavos. Ou menos.
A proposta do não-pagamento da dívida externa, que estaria legitimada por um plebiscito servido por um questionário tendencioso, seria a tal de emenda pior que o soneto. Um prêmio à gandaia nacional, reverso do moral hazard cunhado por Kenneth Arrow em seu clássico Essay in the Theory of Risk-bearing (1971).
Até para combater a miséria e a exclusão é preciso chamar um plebiscito nacional sobre a urgência de uma reforma radical do Estado brasileiro maior tabu da esquerda. Pois o que tem feito do Brasil um país rico cheio de pobreza é justamente um governo de três níveis que não governa porque não se governa e não se deixa governar.
Que tal um plebiscito nacional sobre a remoção cirúrgica dos escandalosos privilégios da Previdência, mui especial do setor público começando pelos abusos adquiridos desfrutados por parlamentares e magistrados? Abusos legislados em causa da própria... Que tal um plebiscito nacional sobre o formato e o trabalho dos nossos tribunais faz-de-contas, chaveiros de portas arrombadas?
E que tal um plebiscito nacional sobre nosso ensino público superior gratuito aos quais os pobres nunca tiveram ou terão acesso? Ou como escreve o professor José Márcio Camargo, da PUC-RJ: Os programas sociais bancados por recursos públicos continuam beneficiando os não-pobres e até mesmo os ricos. Um Robin Hood trapalhão.
A dívida financeira externa e a dívida mobiliária interna foram contratadas exatamente para cobrir essa gandaia nacional, na qual a gastança pública sempre andou amasiada com a ganância privada pelos motéis da corrupção e do desperdício. Os banqueiros lá fora e os investidores aqui dentro nada têm a ver com a nossa cultura política da permissividade, da impunibilidade e da pusilanimidade. A não ser, claro, cobrar juros insanos pelo risco Brasil do calote.
Secos & Molhados





