JOELMIR BETING
Uma vez aberto um saco de gatos, a única maneira de reensacá-los é utilizando um saco bem maior.
Lei de Zygmurgy (sobre Sistemas Evolutivos).
Contas do passado
A dívida externa não é a causa da pobreza nacional. Ela é o efeito da gandaia nacional. Negacear o efeito é legitimar a causa. Sim, o calote seria um prêmio à gandaia.
Que gandaia? Seguinte: a dívida externa foi contratada para a realização de planos e obras sem lastro em poupança interna. E sem auditoria idem. Ela também foi assumida para a cobertura de rombos, desvios, propinas, incompetências e desperdícios.
De sobremesa, financiou o consumo guloso de petróleo ainda ao tempo em que o Brasil importava quatro barris em cada cinco. Os países ricos optaram pelo racionamento de combustíveis. O Brasil cor de anil preferiu limpar a cara da Petrobrás: empinando papagaio em banco para queimar petróleo árabe e sustentar negócios e empregos.
Gandaia, sim. O crédito internacional era barato e oferecido. Banqueiros faziam fila para emprestar capital ocioso ao Brasil. Não raro, com carência de até cinco anos e juros de 6% ao ano. O Brasil dos anos 70 se permitia o luxo de estabelecer as condições de cada contrato. Nossa fiança era o lema: dívida externa não se paga; rola-se. Com o adendo: o país não tem dívida; o país tem crédito.
A exposição de motivos da época era incontestável: a de acelerar a construção do Brasil com a ração suplementar da dívida externa barata e molóide. A poupança interna não tinha munição para um crescimento sustentável acima de 3% ao ano. Ou para uma expansão anual do produto per capita superior a 0,5%.
Para executar esse modelo ao pé da letra e da verba, criamos os monopólios estatais do petróleo, da energia, das telecomunicações e dos transportes. Estatização radical da infra-estrutura econômica, executada por um regime militar de extrema direita, para a euforia da oposição exilada de extrema esquerda. Uma estatização financiada precisamente pela dívida externa que a esquerda ainda hoje renega.
O que deu errado? O choque duplo do petróleo importado levantou o barril de menos US$ 3 para mais de US$ 40, entre outubro de 1973 e novembro de 1979. O petróleo é nosso vinha da Opep: 83% de dependência externa ainda em 1980.
Resultado: a soma do maior canteiro de obras do mundo com a maior queima de divisas em petróleo alheio fez com que a dívida externa disparasse de US$ 14 bilhões para US$ 104 bilhões em apenas dez anos (1974/1983). Quase metade desse tranco só para financiar o consumo interno de petróleo. E, como desgraça pouca é bobagem, a especulação financeira com os petrodólares, nos dois lados do Atlântico Norte, catapultou os juros da dívida do Terceiro Mundo de 6% ao ano para até 21% ao ano! Tiro e queda.
Secos & Molhados





