Joelmir Beting
As dificuldades são como as montanhas: só se aplainam quando avançamos sobre elas.
Émile Zola (1837-1902), escritor francês
América do sol
A Do alto de um PIB coletivo de US$ 1,5 trilhão e em nome de 337 milhões de terráqueos, os presidentes dos 12 países da América do Sul (incluídos o Suriname e a Guiana) discutem, em Brasília, uma agenda diplomática de avestruz. Não o da cabeça enterrada na areia, mas o do estômago de aço inoxidável.
Deletando-se a retórica de praxe e a pauta idem, sobra na mesa-redonda de hoje e de amanhã o trato de um programa concreto: o da integração física do Continente, ainda hoje mais parecido com um arquipélago de países estanques.
Municiados por recentes relatórios do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os governos partem para a definição de megaprojetos conjuntos nos domínios dos transportes, da energia e das telecomunicações. Definição que dá carona a um novo padrão de financiamento: recursos estatais, capitais privados e créditos do BID e das agências nacionais e regionais de fomento.
Recursos estatais? Sem exceção, todos os governos da América do Sul não têm dinheiro nem para minorar as carências africanas nas áreas da saúde, educação e segurança. Eles continuam desmanchando monopólios estatais impotentes e privatizando empresas públicas sem futuro. E queimando os recursos da privatização na amortização de parcelas das dívidas nacionais.
Pelo cheiro da brilhantina, a integração física do Continente terá de ser assumida pelo setor privado, se devidamente financiado pelos bancos de desenvolvimento. O megacanteiro de obras acaba de ser avaliado em US$ 150 bilhões - um décimo do PIB continental. A capacidade de endividamento do setor público está esgotada.
Única certeza: sem a integração geoeconômica, a carpintaria do Mercosul ampliado e da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca) acabará não passando da boa intenção.
Líder natural do grupo, o Brasil já protocolou um cronograma tido como ideal. Primeiro: consolidar e expandir o Mercosul para quase toda a América do Sul. Segundo: definir e executar os grandes eixos de transposição nos transportes, na energia e nas telecomunicações. Terceiro: daí, sim, passar da integração dos 12 para a integração dos 35, sob o guarda-chuva do Nafta, mercadão de US$ 11 trilhões (a dólar e PIB de 2000), na soma de Estados Unidos, Canadá e México.
Detalhe político: pela primeira vez, discute-se a integração não da abstração geopolítica chamada América Latina, mas do espaço físico comum chamado América do Sul a América do Sol.
Secos & Molhados





