‘‘Não é a escassez de recursos que limita as decisões. É a insensatez das decisões que atrofia os recursos.’’
Karl Gunnar Myrdal (1898-1987), Prêmio Nobel de Economia (1974).
Meia volta, volver
Porque a inflação do megabloco está em 2,4% ao ano, o Banco Central Europeu pode optar, amanhã, em Frankfurt, por mais uma puxada na taxa básica de juros, fixada em 4,25%. A meta inflacionária do BCE impõe o teto leonino de 2% para a média dos 15 países da União Européia (dos quais, 11 a bordo do euro, moeda única).
economistas e empresários europeus torcem pela manutenção do piso de 4,25% por tempo indeterminado. Primeiro: se feito o expurgo do ‘‘choque de oferta’’ do petróleo, a inflação européia não tem passado de 1,7%. Segundo: a economia está escapulindo de uma quadra de lesma e o desemprego declina pela primeira vez em 12 anos. Aumento no produto bruto de 3,4% e queda no desemprego de 10,3%, em dezembro, para 9,1%, em julho.
A desvalorização do euro está de bom tamanho. A moeda única acumula perda de 24% em relação ao dólar, desde sua estréia em janeiro de 1999. Esse guincho cambial recarregou as exportações européias e melhorou os indicadores de produção e de emprego. Do lado de fora da Eurolândia, a Inglaterra não se queixa: PIB de 3,1%, desemprego de 5,9%, inflação de 1,2% e juros básicos de 6%.
Pacotes fiscais de reativação da economia estão em curso na Alemanha, na Itália e na Espanha. A França deve anunciar, amanhã, a maior reforma fiscal em meio século. Os franceses reclamam do arrocho tributário perpetrado pelos governos socialistas (ou de socialistas). O ex-presidente da Assembléia Nacional, Laurent Fabius, que está ministro da Economia, disse sexta-feira: ‘‘A esquerda não tem medo da direita. O medo dela, nas urnas, é o próprio Fisco.’’
Bingo! O professor Gary Becker, de Chicago, Prêmio Nobel de Economia, escreveu para o jornal Valor (32-8-2000): em toda a Europa, os governos de esquerda fazem reformas de direita. Com perdão do palavrão: reformas neoliberais. Furtivamente, Jospin, Schroeder e Blair rasgaram o ideário de palanque e partiram para a redução de impostos com a contrapartida da redução de gastos. E prometem desregulamentar mercados protegidos, incentivar a previdência privada suplementar e flexibilizar a legislação trabalhista.
O ministro francês Laurent Fabius propõe o corte de sobretaxas nos combustíveis já a partir de outubro. E promete um pacotaço fiscal capaz de rebaixar a carga tributária de 44,8% do PIB para 41,3% até 2004. Na Inglaterra, é de 39,7%. A ordem, diz ele, é tributar menos sobre cada vez mais e não mais sobre cada vez menos.
Eis aí uma carapuça de cetim para a cabeça quadrada de Brasília. Governo e Congresso não se afinam no parto de montanha de uma reforma tributária em favor da economia e da sociedade.


Secos & Molhados

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