Joelmir Beting
O que é a nossa História? Ela é, simplesmente, a soma de todas aquelas coisas que poderiam ter sido evitadas.
Konrad Adenauer (1877-1967), estadista alemão
Sistema por um fio
Deu blecaute mental no megamercado da energia elétrica. Metade dos peritos do ramo avisa que estamos a exatos 12 meses do racionamento periódico da força e da luz. Com chuva ou sem chuva. A outra metade garante que a hipótese dos apagões propositais, com aviso prévio, só deve ser encarada se a economia voltar a crescer acima de 7% ao ano.
Osistema já opera no limite da capacidade instalada de geração, da ordem de 67 mil MW. As 49 usinas termoelétricas em projeto e/ou em construção, acréscimo de 17 mil MW, só estarão operando à carga plena por volta de 2004. O aumento do consumo nacional de eletricidade foi estimado na média de 5,5% ao ano. Projeção conservadora para um Brasil ainda em fase de eletrificação.
Conta-se com mais 6 mil MW de novas hidrelétricas. Aposta-se na ração suplementar da energia importada da Argentina (que pode saltar de 3 mil para 9,6 mil MW). E não se descarta a adoção de um programa agressivo de conservação de energia. Nosso desperdício ainda é pantagruélico. A poupança de energia aguarda menos uma catequese cultural e mais um choque tarifário. Nosso juízo é o bolso.
Enquanto isso, geradoras e distribuidoras preferem questionar o rumo e o ritmo da auto-regulamentação a partir de sexta-feira, virada de setembro. Entra em linha o chamado Mercado Atacadista de Energia. Com ele, as tarifas poderão ser pactuadas, mensalmente, a partir do custo do MW hidrelétrico. Em 2002, elas serão fixadas livremente pelo mercado, até de meia em meia hora. Com tarifas maiores nos horários de pico, claro.
Essa transição do cabresto estatal para o negócio aberto dá carona a um complicador de mercado: o advento incentivado da termoeletricidade de usinas a gás e a óleo além dos reatores de Angra dos Reis. As termoelétricas, que geram um MW mais caro, entram na competição vestidas com as armaduras da garantia de tarifas remuneradoras, da cobertura de riscos cambiais e de outros benefícios com prazo de validade de 2001 a 2020.
Pelo sim, pelo não, os grandes consumidores industriais de energia continuam investindo pesadamente em autogeração. Entre outros, a Vale do Rio Doce, as siderúrgicas de Volta Redonda e Tubarão, as petroquímicas Copene e Copesul e os grupos Aracruz, Alcoa e Votorantim. Veladamente, eles reclamam em três frentes: 1) da fragilidade das novas regras do jogo; 2) da falta de interlocutores sólidos na burocracia planaltina; 3) do curso reticente da privatização de Furnas já descontado o Efeito Itamar. Sim, acabou a lua-de-mel na privatização dos megawatts.





