Joelmir Beting
Panela no impasse
O comércio internacional mais antigo do mundo é o dos produtos agrícolas. O mais antigo e o mais enrolado. Os produtos são subsidiados na saída e confiscados na chegada. O protecionismo é praticado ostensivamente por países ricos, pobres e remediados. A proteção aceita tudo: medidas tarifárias, cambiais, monetárias, fiscais, sanitárias, ambientais, alfandegárias e que tais. Sem contar, claro, as cotas de importação e os tetos de exportação.
Na conferência ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC), esta semana, em Cingapura, os 127 países membros discutem acordos e desacordos os mais diversos. Incluídos os de investimentos estrangeiros, telecomunicações e informática, trabalho escravo, compras governamentais e pesquisas genéticas. A pauta de liberação dos mercados agrícolas, essa vai ficar para 1999.
Campeões do protecionismo na economia rural, os europeus tentam esvaziar até mesmo a agenda de 1999. A Europa mal consegue sustentar compromissos de abertura firmados com os Estados Unidos no Acordo de Blair House. A delegação americana continua primando pela ambiguidade nessa abrasiva matéria: o discurso é de abertura, o recurso é de fechadura. Os Estados Unidos já respondem por 23% do comércio agrícola mundial, com exportações anuais de US$ 58 bilhões na média dos anos 90.
Washington prepara-se para desregulamentar o mercado interno, retirando dos produtores a massa de subsídios e a carga de confisco. Claro, dependendo do acordo multilateral programado para 1999. Até lá, o mercado americano continuará protegido contra a invasão de produtos agrícolas de elevada vantagem comparativa. Caso do suco de laranja made in Brazil, o mais competitivo do mundo. O produto brasileiro só consegue desembarcar no cardápio do consumidor americano porque paga no porto de chegada uma sobretaxa escandalosa de US$ 479,70 por tonelada.
Até quando? Pelo menos até o ano 2000, disse ontem, em Cingapura, Richard Rominger, vice-secretário de Agricultura dos Estados Unidos.
Secos & Molhados
Vaca gorda
- Pendências outras ficam igualmente proteladas para o ano 2000. Por exemplo: a proibição da vaca americana no mercado europeu. E não por causa da vaca louca. A culpa é da overdose de hormônios na engorda forçada em currais americanos.
Laboratório
- A Europa também abre fogo contra a importação de alimentos geneticamente enriquecidos em laboratório: milho e soja, com respectivos derivados, madi in USA. Os alemães lideram essa rejeição em nome da segurança alimentar do homem.
Sob controle
- Canadá e Nova Zelândia avisam em Cingapura que manterão intactos os monopólios estatais da exportação de trigo e derivados de leite, respectivamente. Japão e Coréia do Sul não deixam por menos: estão com a proteção do arroz e não abrem.
Café ou coca?
- O Brasil questiona em Cingapura: por que o café solúvel brasileiro paga sobretaxa na Europa e o da Colômbia não? A Europa justifica: discriminação para ajudar a Colômbia a substituir a coca pelo café. Ué! Faremos nós o contrário?





