Joelmir Beting
A única ilusão que realmente curtimos na vida reaparece uma vez por semana: é o sábado.
Nelson Rodrigues (1912-1980), jornalista e dramaturgo
Esqueçam a Selic
Assentada no piso de 16,50% ao ano, desde 19 de julho, a taxa básica de juros, vulgo Selic, deve permanecer congelada nesse piso pelo menos até 20 de setembro, próxima canetada da autoridade monetária. Na avaliação de analistas financeiros, a Selic já está de bom tamanho. Poderia permanecer nesse nível até dezembro.
Se descontada a inflação dos últimos 12 meses, medida pelo IGPM, índice favorito do mercado, a taxa-piso real já é a menor dentre todos os países emergentes e submergentes: nada além de 2,04%. Sim, ao ano. Se deflacionada pelo IPCA, índice cativo das metas oficiais de inflação, ela já está igualmente em 1 dígito: 9,46%.
Ao optar pela manutenção da taxa em 16,50%, o Banco Central exibiu uma baciada de caldo de galinha. É preciso certa cautela no curso da bolha inflacionária deste terceiro trimestre do ano. Há uma variável externa fora de controle: a alta persistente do petróleo. Não se pensa em queimar alguma fatia dos gordos lucros apurados pela Petrobrás no primeiro semestre. Em nome, claro, dos pequenos acionistas recém-chegados do planeta FGTS.
O problema é que a trava antiinflacionária dos juros não está na taxa real do piso, mas na taxa média da ponta. Uma mexida no depois da vírgula da Selic não teria massa crítica para esquentar ou resfriar o radiador da economia em convalescença. Muito menos para reatiçar as brasas da tal de inflação de demanda.
Se juros punitivos realizam essa anorexia econômica nos mercados atrevidos, a Selic nada mais tem a ver com isso. O garrote monetário continua superativo é naqueles juros ainda hoje cobrados na ponta da produção, do giro e do consumo. Para uma Selic de 16,50% ao ano, a coisa vai em média de 59,40% no cheque especial a 256,30% no empréstimo pessoal, passando por 201,10% no cartão de crédito. No capital de giro das empresas, combustível dos negócios em geral, o leque oscila de 27% a 58% ao ano.
Deixemos a Selic em paz. E o Fed idem. Ou será que vamos perder o fim de semana na vigília da nova taxa básica da Eurolândia, reunião do Banco Central Europeu marcada para quinta-feira, 31? O negócio é marcar sob pressão os caprichos do crédito em banco e do crediário em loja. Ou como disse, em maio, o próprio Armínio Fraga: O mercado bancário ainda não está funcionando no Brasil. Ele mais atrapalha do que fertiliza a atividade econômica.
Ainda que lenta, a correção está em marcha. Desde outubro, os empréstimos cresceram 28% e o custo médio para os tomadores baixou 17%.
Secos & Molhados





