Joelmir Beting
Na política, assim como na vida, a sabedoria sónos chega quando já não nos serve para nada.
Gabriel Garcia Márquez, escritor colombiano
Essencial ou supérfluo?
A lógica pura do capitalismo opulento está na democratização do capital produtivo: dezenas de milhões de proprietários de ações e/ou de cotas de fundos de ações e de clubes de investimento. As boas empresas abrem ao público em geral a participação no respectivo capital. E as empresas promissoras, de mercados idem, desfrutam da adubação de investidores de risco - antes mesmo do lançamento do primeiro produto ou serviço. Ou do retorno do primeiro lucro.
Eis o DNA da riqueza americana, com sobras para a riqueza européia e para a riqueza japonesa. O sócio no lugar do credor. O capital de risco no lugar do dinheiro de aluguel. O acesso popular ao mercado primário de ações e ao mercado secundário das bolsas ganhou o magnífico atalho dos fundos de pensão. Que o professor Peter Drucker define em Sociedade Pós-Capitalista como sendo a forma superior do capitalismo, que é socialismo; ou a forma superior do socialismo, que é capitalismo. É mole?
Nos Estados Unidos, o patrimônio coletivo em ações e fundos de ações, em poder de empresas e de famílias (metade da população), acumulava, em 30 de junho, um valor de mercado da ordem de US$ 19,4 trilhões. Ou o dobro do PIB americano. No Brasil, as empresas listadas na Bovespa valem em bloco menos de um quinto do PIB.
A capitalização da economia no reservatório do mercado acionário reduz o sistema bancário (credor no lugar do sócio) a mero provedor de crédito para giro e consumo, com presença apenas residual nos emprendimentos de longa maturação ou demorado retorno papel desempenhado, entre nós, exclusivamente, pelo BNDES, com aplicação anual abaixo de 4% do PIB.
O capitalismo bancado por capitalistas obriga o setor bancário a operar com margens estreitas, oferecendo créditos longos a juros baixos. As empresas beneficiam-se tanto do capital de risco dos sócios, recurso mais barato da praça, como dos financiamentos bancários civilizados. O modelo igualmente patrocina eficiência e transparência na condução das empresas de capital aberto. Ou seja: o sistema agiganta-se nos custos menores do capital e nos ganhos maiores da gestão profissional. Há quem chame isso de imperialismo!
Essa cartilha do capitalismo dito social continua escrita em grego para a classe política brasileira. Ela acaba de empurrar com a barriga, para o ano que vem, o projeto de modernização (e popularização) do mercado brasileiro de capitais. Sob a cândida alegação de que a nova Lei das S.As. constitui matéria complexa, apenas 31 deputados compareceram ao debate dela, quarta-feira, na própria Câmara Federal, com o primeiro escalão do governo. Triste.
Secos & Molhados





