‘‘O olho da nascente sempre desaprova o itinerário do rio.’’
Jean Cocteau (1889-1963), escritor francês
Base de bom tutano
Para variar, metade do mercado financeiro sustenta que os juros básicos serão mantidos em 6,50% ao ano nos Estados Unidos e em 16,50% no Brasil. Ambos com viés neutro. Quando? Nas reuniões de hoje e de amanhã do Fomc do Fed americano e do Copom do Bacen brasileiro. A outra metade garante que a taxa básica passará de viés neutro para viés de alta em Washington e de neutro para baixa no Brasil. Nova redução, aqui, ficaria para a semana que vem, dia 31.
Sim, saquemos o glossário. Fomc do Fed é o Federal Open Market Committee do Federal Reserve System (Comitê Federal de Mercado Aberto do Sistema de Reserva Federal, o banco central dos Estados Unidos). Copom do Bacen é o Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil. Fomc e Copom fazem reuniões a intervalos de aproximadamente 45 dias, com aviso prévio, para recalibrar ou não a taxa básica de juros (a dos Fed Funds deles e a Selic nossa). Quando declarada em viés de baixa, a Selic pode ser reduzida (ou não) a qualquer momento, antes da reunião do Copom.
Amanutenção da taxa americana guarda relação com a desaceleração administrável da economia – o chamado ‘‘pouso suave’’ da astronave de quase US$ 10 trilhões. Tem a ver, igualmente, com o resfriamento ajuizado da ‘‘irracional exuberância’’ do mercado de ações, patrimônio coletivo de US$ 19,4 trilhões. E a provável adoção do viés de alta deita raiz na desgarrada do déficit comercial, embicado para uma cratera marciana, este ano, de US$ 350 bilhões.
Sim, os americanos estão consumindo importações da ordem telúrica de US$ 3,8 bilhões por dia! Ou US$ 1,4 trilhão nas projeções recalculadas para 2000. As exportações ensaiam ficar abaixo de US$ 1,1 trilhão. Lá, como cá, é mais fácil segurar as importações do que atiçar as exportações. A desaceleração do consumo interno (por elevação dos juros e redução do crédito bancário) é o grande atalho para a contenção das compras externas. Juros altos também esvaziam o balão das bolsas e cortam as asas da alta dos preços.
Se o Fed ataca os efeitos colaterais negativos do sucesso econômico, o Bacen busca aliviar o garrote financeiro que vinha sabotando a retomada do crescimento econômico com estabilidade monetária. O presidente Fernando Henrique Cardoso reafirmou, domingo, o compromisso político com uma Selic de um dígito até o Natal. No caso, taxa básica deflacionada pelo IPCA. Que acumula 3,28% de janeiro a julho. Se deflacionada pelo mesmo IPCA dos últimos 12 meses (de exatos 7%), a Selic já está em 9,50%.
Odetalhe: se aplicado o deflator IGPM, o favorito do mercado financeiro, com índice acumulado em 12 meses de 14,46%, a taxa básica brasileira já está em 2,04% ao ano. De padrão suíço.


Secos & Molhados

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