Joelmir Beting
São três os símbolos realmente sagrados de toda nação que se leva a sério: a bandeira, o hino e a moeda.
Friedrich von Hayek (1899-1992), Prêmio Nobel de Economia (1974)
Jacaré não é bóia
Dolarização da Argentina, dolarização do Brasil, dolarização do Mercosul, dolarização da América Latina. Eis o que seria a moeda única da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca), emitida pelo Salão Oval da Casa Branca. O novo Prêmio Nobel de Economia (1999), o canadense Robert Mundell, é o principal oráculo dessa panacéia cambial para o Terceiro Milênio. Ele sustenta que, em mais 15 anos, se tanto, as atuais 191 moedas nacionais estarão refundidas em apenas quatro moedas globais: dólar, euro, iene e yuan.
O esotérico assunto foi retomado, esta semana, pelo ex-presidente argentino Carlos Menem. Avalista da paridade cambial de 1x1, desde 1991, ele reaparece na arena política por obra e graça do desgaste precoce do sucessor Fernando de la Rúa. E Menem não perdeu a deixa, tocando a corda mais sensível do violino argentino: a da sobrevivência (ou não) da moeda nacional.
O peso atrelado ao dólar, sob o tampão do regime de currency board (versão moderna do antigo padrão ouro), até que vai bem. A inflação virou fumaça e a livre conversibilidade se sustenta. O problema é que não existe churrasco de graça: a estabilidade monetária, garantida por essa alquimia cambial, está destruindo a competitividade econômica das empresas por dentro, de dentro para fora e de fora para dentro. Com direito a uma taxa de desemprego de padrão africano: 15,2%.
Acoplada ao Mercosul, a reboque do Brasil, a economia argentina bem que disfarçou os efeitos colaterais do engessamento cambial à sombra da supervalorização do real. Com o inesperado ajuste de mercado da moeda brasileira, a Argentina acabou ficando sem a escada, agarrada na brocha. Até quando?
Pai da criança anoréxica, Carlos Menem suspira fundo: a) não dá para manter a paridade fixa por mais tempo; b) soltar o câmbio na praça produziria uma violenta desvalorização do peso, com abandono progressivo da moeda nacional por famílias e empresas estocadas em dólar no banco da esquina; c) a dolarização terminal, por decreto, seria a única alternativa a menos ruim.
Voltemos à moeda única de Mundell. Adotar um dólar verde-amarelo, na mesma bitola de um dólar azul-celeste, desencadearia, no caso brasileiro, um fenômeno que os americanos chamam de repricing da massa de assets, início do princípio do nosso doomsday (Dia do Juízo Final). Ou como diz o presidente do BNDES, Francisco Gros: Dolarizar? Só em desespero de causa. É como alguém que está se afogando e se agarra a um troço que passa para só depois conferir se está abraçado a um tronco ou a um jacaré...
Secos & Molhados





