Joelmir Beting
Quatro milhões de famílias estão atadas ao futuro do campo. Não é um desafio setorial. E uma questão nacional.
Guilherme Leite da Silva Dias, economista
Metade não funciona
O berço continua esplêndido. O futuro ainda não foi revogado. O problema é que o Brasil rural, dorminhoco atávico, teima em permanecer eternamente deitado. Perto de 50% dos nossos 4,8 milhões de propriedades agrícolas estão em processo de decadência e sucatamento. Assinado: Guilherme Dias, em entrevista a Claudio Cerri, da revista Globo Rural, edição de agosto.
Especialista em economia rural e professor da Universidade de São Paulo, Guilherme Dias discorre sobre os amargos contrastes de um modelo (ou falta de) agrícola de dupla estrutura: centenas de empresas rurais modernas sobre uma plataforma de milhões de estabelecimentos agrícolas de baixa eficiência, geradores de empregos ruins com salários péssimos.
Eis a questão de fundo: não basta hospedar os anseios dos sem-terra sem resolver os problemas dos com-terra. A reforma agrária não tem nexo fora de uma reforma agrícola digna do nome a da (re)organização da economia rural brasileira, desperdício universal.
Diz Guilherme Dias: O que é realmente viável no atual modelo mal passa de um terço do potencial produtivo. O processo seletivo do mercado, agora exacerbado, pode decretar a falência de pelo menos 400 mil produtores de médio porte.
Essa raça em processo de extinção, na mesma sina da ariranha e do mico-leão, não é de fazer passeata nem manifesto. Ela só ganha espaço e tempo na multimídia quando pilhada em algum calote no Banco do Brasil. O setor não tem representação política adequada, segundo Guilherme Dias, porque está rachado por interesses conflitantes: Há o conflito dos grandes com os pequenos, dos com muita com os com pouca terra, dos com muito com os com pouco crédito, dos emergentes com os decadentes... O Estado regulador e provedor ficou pelo caminho, na quebradeira dos anos 80.
No rodapé do sistema, nada menos de 2,4 milhões de propriedades rurais de mera subsistência familiar, todas com menos de 10 hectares na escritura. Esses com-terra não conseguem arrancar da própria sequer uma renda monetária de um salário mínimo para toda a família de quase cinco bocas. Sobrevivem do teto tosco, da dieta rala e do exílio urbano da filharada subempregada.
Secos & Molhados





