Joelmir Beting
A biodiversidade da Amazônia é um cheque visado emitido pelo banco da
natureza em nome do Brasil. Para saque no século 21.
Amory Lovins, em Capitalismo Natural (Cultrix)
É pau ou é pedra
Que tal juntar 80 mil cabeças de Nelore no fundo de um vale sem saída e tocar fogo de napalm na boiada para substituir a pastagem assim liberada por uma moderna lavoura de soja? Pois essa burrice econômica vem sendo cometida por quem derruba a floresta para instalar no lugar dela o criatório zebuíno ou o cultivo da soja.
Seguinte: a vocação econômica da floresta é a própria floresta se devidamente manejada, monitorada, explorada. A observação acaciana ganha um demonstrativo técnico de três pesquisadores brasileiros: Eugênio Arima, Adalberto Veríssimo e Paulo Barreto, a serviço do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).
Eles sustentam que a agropecuária não dá liga com a fantástica biodiversidade (econômica) da Amazônia. Há uma repulsão natural do ecossistema em relação a rebanhos e lavouras. Tanto assim, que o chamado arco do desmatamento, convertido para bois (77%), grãos (18%) e outros (5%), registra 165 mil km quadadrados de abandono e outros 610 mil km quadrados de baixo retorno. Taxa de retorno de apenas 4% do capital investido. Em rendimento, perde até da caderneta de poupança (sem risco, sem esforço, sem invasão, sem padre).
Aprodução média para um criatório de 32 milhões de cabeças mal passa de meio boi por hectare (um terço da média da zebuzada no Brasil Central). A renda bruta não vai além de R$ 660 milhões e o emprego total não chega a 120 mil. Na mesma área, se não desmatada, a extração sustentável da madeira estaria obtendo retorno médio de 33%, segundo o Imazon. E mais: renda bruta de R$ 3,1 bilhões e quase o dobro de empregos (230 mil). Ah! A contribuição fiscal do setor madeireiro, com retirada comercial de 28 milhões de metros cúbicos por ano, tem sido nove vezes maior que a da agropecuária da região. Palavra do Fisco do Pará e do Amazonas.
E
ssa comparação, apurada pelos pesquisadores, leva em conta não apenas a extração sustentável da madeira; também o aproveitamento econômico de fibras, óleos, corantes, resinas, plantas medicinais e alimentos silvestres. Esse extrativismo inesgotável, basicamente de arrimo familiar, sustenta 1,5 milhão de patrícios, ainda nos cálculos do Imazon.
Em resumo: substituir florestas por rebanhos e lavouras é manifestação estrepitosa de burrice econômica, sobre ser um suicídio ambiental. Ou, como diria Aspásia Camargo, do estreante Centro Internacional de Desenvolvimento Sustentável, da FGV: quando agredida pelo bicho-homem, a floresta não se defende. Ela apenas se vinga.





