Joelmir Beting
Não tem jeito: o medo de perder sempre tira a vontade de ganhar.
Wanderley Luxemburgo, técnico da seleção.
Contagem regressiva
Para cada ação negociada na Bolsa de São Paulo, a faiscante Embraer já negocia três ações na Bolsa de Nova York. O detalhe: ela fez sua estréia em Wall Street há exatamente 11 pregões. Ainda sob o bombardeio da retaliação comercial da enciumada Bombardier.
Bingo para a Embraer. Bomba para a Bovespa. O sucesso fulminante em Wall Street da primeira empresa verdadeiramente global do Brasil é mais um lance do processo de esvaziamento do mercado brasileiro de ações. Que alguns operadores, entre dois sorrisos amarelos, preferem chamar de processo de globalização do mercado de capitais. De resto, um fenômeno irreversível.
Tanto assim que a própria Bovespa não vacilou em fazer desse limão mais que azedo uma doce limonada. Ela desfralda o crachá de membro fundador do Global Equity Market. Ou Globex embrião de uma primeira bolsa global, com direito a custódia idem.
O ministro Alcides Tápias apela para uma coluna do meio: não se deve capitular sumariamente aos mercados externos nem colocar trancas protecionistas nos portões e nos pregões já arrombados. Temos de correr com dois cavalos nesse páreo: 1) disputar investidores lá fora, lançando papéis das nossas empresas e operando mesas das nossas corretoras nos dois lados do Atlântico Norte; 2) reformular nosso estatuto do capital aberto, modernizar nosso mercado de capitais e atrair um número maior de investidores estrangeiros institucionais e/ou individuais.
O primeiro desafio está sendo encarado alegremente. Nada menos de 87 programas de ADRs de empresas brasileiras estão movimentando perto de US$ 33 bilhões em Wall Street. Os ADRs, sigla de American Depositary Receipts, são certificados emitidos nos Estados Unidos para lastrear juridicamente a propriedade de ações de companhias estrangeiras. Os ADRs da Vale do Rio Doce, da Telesp Celular, da Embratel e da Aracruz movimentam em Nova York de três a cinco vezes mais do que as ações dessas mesmas empresas em São Paulo. A novata Embraer não deixa por menos.
Como reverter ou pelo menos amainar essa migração? Eis o segundo desafio proposto pelo ministro Alcides Tápias. Que deixou escapar, na mesma linha traçada, dias antes, pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga: a remoção cirúrgica da CPMF incrustrada no ventre do mercado de ações seria o primeiro passo...
No que dispara o presidente da Bovespa, Alfredo Rizkallah: Sim, a CPMF vai acabar destruindo os pregões, as bolsas, os investidores, os acionistas, os corretores... O último apaga o micro.





